
Cerca de 11 € por mês para quem faz 1.000 km. É esta a diferença, com os preços regulados da ERSE para 2026 e IVA a 23%, entre carregar em casa com tarifa simples e carregar nas horas de vazio de uma tarifa bi-horária. Ao fim de um ano são perto de 134 €, e mais de 200 € para quem anda 1.500 km por mês.
A pergunta sobre quanto se poupa a carregar o carro elétrico à noite tem, ainda assim, uma resposta com letra pequena. A bi-horária encarece a eletricidade que a casa gasta durante o dia, o IVA a 6% quase nunca chega aos kWh do carro e uma wallbox mais potente pode obrigar a subir a potência contratada. Fizemos as contas para os elétricos mais vendidos em Portugal e para os três tipos de tarifa, com tudo o que pesa na fatura.
Os valores de referência são os da tarifa regulada da ERSE para Portugal continental, em baixa tensão normal até 20,7 kVA, em vigor desde 1 de janeiro de 2026. Estão sem IVA, tal como a ERSE os publica.
| Opção tarifária | Período | €/kWh (sem IVA) | €/kWh (com IVA a 23%) |
|---|---|---|---|
| Simples | Todo o dia | 0,1654 | 0,2034 |
| Bi-horária | Vazio | 0,1087 | 0,1337 |
| Bi-horária | Fora de vazio | 0,1988 | 0,2445 |
| Tri-horária | Vazio | 0,1087 | 0,1337 |
| Tri-horária | Cheias | 0,1690 | 0,2079 |
| Tri-horária | Ponta | 0,2495 | 0,3069 |
O kWh de vazio sai cerca de 34% mais barato do que o da tarifa simples e cerca de 45% mais barato do que o de fora de vazio. Há ainda um pormenor que muita gente desconhece: no mercado regulado, a potência custa exatamente o mesmo por dia nas três opções. A 6,9 kVA são 0,3659 €/dia, quer escolha simples, quer bi-horária. Mudar de opção não traz qualquer penalização no termo fixo.
A maior parte do desconto noturno não vem da energia, vem da rede. A tarifa de acesso às redes (TAR), que a ERSE fixa e que todos os comercializadores repassam na fatura, é de 0,0158 €/kWh no vazio, contra 0,0835 €/kWh fora de vazio e 0,0607 €/kWh na tarifa simples. Dos 9 cêntimos que separam o vazio do fora de vazio, quase 7 cêntimos são desta componente.
Na prática, isto significa que no mercado livre as ofertas bi-horárias também têm um vazio mais barato, seja qual for a marca na fatura. Os valores exatos mudam, mas a lógica mantém-se.
A ERSE aprovou uma subida de 0,005 €/kWh na componente de energia da tarifa regulada a partir de 1 de outubro (Diretiva n.º 4/2026), o que equivale a cerca de 2,7% na fatura média. Com IVA, são aproximadamente mais 0,6 cêntimos por kWh.
O acréscimo é igual em todos os períodos. Por isso a diferença entre vazio e simples, e portanto a poupança, fica praticamente na mesma. Quem carrega 1.000 km por mês paga cerca de mais 1 € em qualquer das opções. A subida aplica-se diretamente a cerca de 779 mil clientes do mercado regulado. Os comercializadores do mercado livre não são obrigados a acompanhá-la, embora costumem fazê-lo.
Para as contas por modelo usámos o consumo real estimado pelo EV Database e os preços regulados de janeiro a setembro de 2026, com IVA a 23%. Os modelos são os dez elétricos mais vendidos em Portugal entre janeiro e julho de 2026, segundo a ACAP. Falta o Peugeot E-2008, para o qual não obtivemos um consumo comparável.
| Modelo (posição no top) | kWh/100 km | Simples | Bi-horária, vazio | Bi-horária, fora de vazio | Poupança vazio vs simples |
|---|---|---|---|---|---|
| Tesla Model 3 RWD (1.º) | 13,3 | 2,71 € | 1,78 € | 3,25 € | 0,93 € |
| Tesla Model Y RWD (2.º) | 15,9 | 3,23 € | 2,13 € | 3,89 € | 1,11 € |
| Volvo EX30 (3.º) | 17,8 | 3,62 € | 2,38 € | 4,35 € | 1,24 € |
| Citroën ë-C3 (4.º) | 17,2 | 3,50 € | 2,30 € | 4,21 € | 1,20 € |
| Mercedes CLA 250+ (5.º) | 14,5 | 2,95 € | 1,94 € | 3,55 € | 1,01 € |
| BMW iX1 eDrive20 (6.º) | 16,3 | 3,32 € | 2,18 € | 3,99 € | 1,14 € |
| Renault 5 52 kWh (7.º) | 15,5 | 3,15 € | 2,07 € | 3,79 € | 1,08 € |
| Xpeng G6 RWD (9.º) | 17,4 | 3,54 € | 2,33 € | 4,25 € | 1,21 € |
| BMW iX2 eDrive20 (10.º) | 16,1 | 3,28 € | 2,15 € | 3,94 € | 1,12 € |
O Tesla Model 3 é o mais barato de carregar da lista, com 1,78 € por cada 100 km quando carrega no vazio. No extremo oposto, o Volvo EX30 é o que mais ganha com a noite: poupa 1,24 € a cada 100 km. Fora de casa, as contas são outras: os preços do carregamento público em Portugal ficam normalmente bem acima do vazio doméstico.
Repare na coluna do fora de vazio. Quem passa para bi-horária e liga o carro ao chegar a casa, às 19h, paga mais do que pagaria na tarifa simples. O desconto só existe se o carregamento estiver programado para arrancar depois das 22h.
Com um consumo médio de 16 kWh/100 km, próximo do Model Y, do iX1 e do iX2, as contas mensais ficam assim (preços regulados de 2026, IVA a 23%):
| km por mês | kWh | Simples | Vazio | Fora de vazio | Poupança vazio vs simples (mês / ano) |
|---|---|---|---|---|---|
| 500 | 80 | 16,28 € | 10,70 € | 19,56 € | 5,58 € / cerca de 67 € |
| 1.000 | 160 | 32,55 € | 21,39 € | 39,12 € | 11,16 € / cerca de 134 € |
| 1.500 | 240 | 48,83 € | 32,09 € | 58,69 € | 16,74 € / cerca de 201 € |
Estes números não incluem as perdas do carregamento em corrente alternada, que rondam os 10%. Com elas, 1.000 km por mês passam a custar cerca de 35,81 € na tarifa simples e 23,53 € no vazio. A poupança anual aproxima-se então dos 150 €.
O carro não vive sozinho na fatura. A bi-horária torna o dia mais caro (0,1988 contra 0,1654 €/kWh sem IVA), e isso pesa no frigorífico, no forno e no teletrabalho. Com os preços regulados de 2026, a bi-horária só compensa quando pelo menos 37% de todo o consumo da casa cai no vazio. Alguns comparadores apontam para mais de 40%, por prudência.
Um carro elétrico carregado de noite empurra quase qualquer casa para lá desse limiar. Veja um exemplo ilustrativo, sem IVA: uma casa que gasta 250 kWh por mês, com um quarto desse consumo à noite, paga cerca de 2,70 € a mais em bi-horária do que em simples. Junte-lhe 160 kWh de carregamentos no vazio (1.000 km) e as contas invertem-se. A bi-horária passa a sair cerca de 6,35 € por mês mais barata, ou 7 a 8 € com IVA, e mais de metade da eletricidade da casa passa a ser consumida no vazio.
Dá menos do que os 11 € da tabela anterior, porque parte da poupança do carro serve para pagar o dia mais caro. Continua, ainda assim, a ser dinheiro. Quanto mais quilómetros fizer, e quanto mais conseguir deslocar para a noite a máquina da loiça ou o termoacumulador, maior fica a margem.
Desde 1 de janeiro de 2026 é possível mudar de opção tarifária ou de ciclo a qualquer momento, sem ficar preso 12 meses. Se as contas não baterem certo, volta-se atrás sem custos.
Para a generalidade das casas até 20,7 kVA, não. O vazio custa o mesmo que na bi-horária (0,1087 €/kWh), mas a tri-horária acrescenta um período de ponta a 0,2495 €/kWh que calha justamente nas horas em que a família está em casa ao fim do dia. Faz sentido sobretudo em instalações de potência elevada, acima de 20,7 kVA.
A bi-horária tem dois ciclos, e a escolha conta tanto como a própria tarifa.
Para quem carrega um pouco todas as noites, o ciclo diário é o mais simples de gerir. O ciclo semanal pode compensar a quem usa o carro sobretudo para ir trabalhar e faz um carregamento grande ao fim de semana, desde que o resto do consumo da casa também se adapte.
Dez horas de vazio dão margem de sobra. Uma wallbox de 3,7 kW entrega cerca de 37 kWh numa noite, o suficiente para mais de 200 km com um consumo de 16 kWh/100 km. Para quem faz 50 km por dia, bastam cerca de 8 kWh, ou seja, pouco mais de duas horas de carregamento.

A ERSE aprovou a 31 de julho de 2026 novos períodos horários. Na bi-horária em ciclo diário, o vazio passa a ser das 22h30 às 8h30. No ciclo semanal, o vazio dos dias úteis passa para 0h30–7h30. Deixa de haver distinção entre horário de inverno e de verão, e na tri-horária a ponta concentra-se entre as 17h00 e as 22h00.
A mudança chega aos clientes domésticos com bi-horária ou tri-horária entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2027. É feita à distância, através do contador inteligente, que 99% dos clientes em baixa tensão normal já têm. O detalhe que interessa a quem tem carro elétrico: um carregamento programado para as 22h00 passa a apanhar meia hora fora de vazio. Quando o novo horário chegar ao seu contador, atualize os temporizadores do carro ou da wallbox.
A taxa reduzida de 6% aplica-se apenas aos primeiros 200 kWh de cada 30 dias (300 kWh para famílias numerosas) e só em contratos até 6,9 kVA. Na bi-horária, esses 200 kWh são repartidos entre vazio e fora de vazio na proporção do consumo. Tudo o resto paga 23%.
Uma casa com carro elétrico soma facilmente 150 a 250 kWh por mês só em carregamentos, o que a leva para lá do escalão. É por isso que as nossas contas usam IVA a 23%: é a taxa que, na prática, incide sobre os kWh do carro.
Uma wallbox de 3,7 kW costuma funcionar com 4,6 a 6,9 kVA contratados. Uma de 7,4 kW pede normalmente 10,35 a 13,8 kVA, e as de 11 a 22 kW entre 13,8 e 27,6 kVA.
Subir de 6,9 para 10,35 kVA custa cerca de 6,40 € por mês com IVA na tarifa regulada. A partir desse patamar perde-se ainda o IVA a 6% nos primeiros 200 kWh. Para quem faz 500 km por mês, isto pode anular quase toda a poupança do vazio.
Com 10 horas de vazio por noite, a maioria dos condutores não precisa de 7,4 kW. Uma wallbox de 3,7 kW, ou um modelo com gestão dinâmica de potência que reduz o carregamento quando o forno ou a placa estão ligados, permite muitas vezes manter a potência atual.
Vários comercializadores têm tarifários pensados para quem carrega em casa. As condições mudam com frequência. Os exemplos abaixo refletem o que estava publicado em setembro de 2026, e convém confirmar tudo diretamente antes de assinar.
Na hora de comparar, olhe para o preço do vazio, mas também para o fora de vazio e para o termo de potência, porque é a fatura inteira da casa que muda. Os descontos com prazo, como os 24 meses da EDP, devem entrar nas contas a médio prazo.
Com um consumo real de cerca de 13,3 kWh/100 km, 1.000 km por mês são 133 kWh. Com os preços regulados da ERSE em vigor entre janeiro e setembro de 2026 e IVA a 23%, isso dá cerca de 17,78 € no vazio da bi-horária, contra 27,05 € na tarifa simples: uma poupança de perto de 9,30 € por mês, ou cerca de 111 € por ano. A subida regulada de 1 de outubro de 2026 acrescenta aproximadamente 0,6 cêntimos por kWh com IVA (menos de 1 € por mês neste caso) e deixa a poupança praticamente igual. Os valores não incluem as perdas de carregamento, que rondam os 10%.
Não, se o carregamento não estiver programado. Fora de vazio, o kWh da bi-horária regulada custa 0,2445 € com IVA, contra 0,2034 € na tarifa simples. Para 1.000 km por mês a 16 kWh/100 km, carregar entre as 19h e as 22h custa cerca de 39,12 €, ou seja, mais 6,57 € por mês do que na simples e quase o dobro dos 21,39 € do vazio. Basta programar o carro ou a wallbox para arrancar depois das 22h00 para inverter as contas.
Segundo a ERSE, o vazio da bi-horária em ciclo diário passa das 22h00–8h00 para as 22h30–8h30, e o vazio dos dias úteis no ciclo semanal passa para 0h30–7h30. A alteração é feita à distância, pelo contador inteligente, entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2027. Um carregamento de 3,7 kW que arranque às 22h00 passa a gastar cerca de 1,85 kWh fora de vazio, o que custa perto de 0,20 € a mais por noite, ou até 6 € por mês se carregar todos os dias. Quando o novo horário chegar ao seu contador, adie o início do carregamento para as 22h30.
Uma wallbox de 7,4 kW pede normalmente entre 10,35 e 13,8 kVA, enquanto uma de 3,7 kW funciona com 4,6 a 6,9 kVA. Subir de 6,9 para 10,35 kVA custa cerca de 6,40 € por mês com IVA na tarifa regulada e faz perder a taxa de IVA a 6% nos primeiros 200 kWh, que só se aplica até 6,9 kVA. Como uma wallbox de 3,7 kW entrega cerca de 37 kWh em 10 horas de vazio, o suficiente para mais de 200 km, a maioria dos condutores não precisa de subir a potência, sobretudo com um modelo de gestão dinâmica de carga.
Não há um vencedor fixo, porque as ofertas do mercado livre mudam com frequência. A regra de base é escolher bi-horária em ciclo diário quando pelo menos 37 a 40% do consumo total da casa, carro incluído, cai no vazio. Como a tarifa de acesso às redes é de apenas 0,0158 €/kWh no vazio, qualquer comercializador tem um vazio mais barato. Em setembro de 2026 havia planos com desconto no vazio, como o da EDP (20% durante 24 meses, com compra de carregador EDP) e o da Galp (até 20%), mas as condições devem ser confirmadas antes de assinar. Compare a fatura inteira, incluindo fora de vazio e potência, e lembre-se de que desde 1 de janeiro de 2026 pode mudar de opção a qualquer momento, sem fidelização de 12 meses.
Afinal, quanto se poupa a carregar o carro elétrico à noite? Para quem faz 1.000 km por mês, uma tarifa bi-horária bem usada vale entre 80 e 150 € por ano, consoante o resto da casa e as perdas de carregamento. Não muda a vida de ninguém, mas o custo é zero: basta um pedido ao comercializador e uma hora programada no carro. Quem quiser ir mais longe pode juntar ao vazio uma oferta de mercado livre com desconto para mobilidade elétrica. E quem tem telhado disponível pode ainda carregar de dia com energia própria, depois de calcular quantos painéis solares são precisos para carregar o carro. Antes disso, convém rever as contas quando o novo horário de 2027 entrar em vigor.