
O Cupra Raval, desenhado e construído na Europa, saiu dos testes de setembro com quatro estrelas no equipamento de série. O GAC Aion UT, o Geely E2 e o Leapmotor B05 saíram com cinco. Foi este o resultado que o Euro NCAP publicou a 2 de setembro de 2026, e é a resposta mais direta que já tivemos àquela pergunta que aparece sempre que alguém pondera um destes carros: os carros elétricos chineses são seguros?
A resposta curta é sim — pelo menos estes três, e segundo o protocolo mais exigente que o Euro NCAP alguma vez aplicou. A resposta longa é mais interessante, porque as novas pontuações mostram onde cada carro é bom e onde ainda falha. E isso, para quem está a escolher entre um citadino elétrico chinês e um europeu, conta mais do que o número de estrelas.
Esta é a maior reforma do sistema em mais de uma década. Até 2025, um carro era avaliado por tipo de ocupante: adulto, criança, utilizadores vulneráveis da via e assistência à condução. A partir de 2026, a avaliação segue a sequência de um acidente e divide-se em quatro Fases da Segurança, cada uma pontuada de 0 a 100 e expressa em percentagem:
A mudança decisiva está nos limiares mínimos por fase. Um resultado excelente no crash test já não compensa uma assistência à condução fraca. É exatamente por isso que o Cupra Raval, com 91% em Proteção em Colisão e 95% em Pós-Colisão, ficou pelas quatro estrelas.
| Modelo | Estrelas | Condução Segura | Prevenção | Proteção | Pós-Colisão |
|---|---|---|---|---|---|
| Geely E2 | 5 | 79% | 72% | 86% | 95% |
| Leapmotor B05 | 5 | 66% | 77% | 92% | 89% |
| GAC Aion UT | 5 | 66% | 74% | 91% | 88% |
| Cupra Raval (série) | 4 | 58% | 66% | 91% | 95% |
| Cupra Raval (Safety Pack) | 5 | 72% | 77% | 91% | 95% |
Nenhum dos três chineses domina em todas as fases. Cada um ganha numa coluna diferente — e é aí que a escolha se faz.
O E2 foi o melhor dos três em Condução Segura, com 79%. Parte do mérito vai para uma decisão de engenharia que parecia fora de moda: manter comandos físicos para as funções essenciais, o que lhe valeu 80% na avaliação do infotainment. Traz ainda deteção de presença de criança de série, algo que nem o Cupra Raval oferece.
Os pontos fracos existem e são concretos. A travagem automática de emergência mostrou-se inconsistente entre cenários, a proteção das pernas do condutor no embate frontal foi insuficiente e o Euro NCAP registou problemas no posicionamento do cinto em cadeiras de criança.
O E2 — vendido como EX2 no Reino Unido — é o carro mais vendido da China: 465.775 unidades em 2025 como Xingyuan e 194.159 no primeiro semestre de 2026. Na Bélgica arrancou em agosto de 2026 por 21.490 €, com 19.490 € em campanha de lançamento. Mede 4135 mm, tem 375 litros de bagageira mais 70 no frunk, sete airbags e um motor traseiro de 85 kW (114 cv). Há duas baterias: 35 kWh para 252 km WLTP e 47 kWh para 345 km WLTP. A partir de 2028 será construído em Espanha, na antiga fábrica da Ford em Almussafes, Valência.

Os 92% em Proteção em Colisão foram a melhor nota de todo o grupo. O B05 obteve pontuação máxima no impacto lateral contra barreira e contra poste, e 100% na proteção da bacia e do fémur. A travagem de emergência foi excecional em cenários de alta velocidade e de cruzamento, e a prevenção de saída de faixa ficou quase perfeita.
Falta-lhe o que os europeus já normalizaram: sistemas de retenção adaptativos a diferentes estaturas e deteção de posições de sentar inseguras no passageiro. Tem deteção de presença de criança de série.
Este é o mais caro dos três e joga noutro campeonato — o Euro NCAP compara-o com o Renault Mégane e o Volkswagen Golf. Fastback do segmento C com 4,43 m, coeficiente aerodinâmico de 0,26, motor traseiro de 160 kW e 0-100 km/h em 6,7 segundos. A bateria cell-to-chassis existe em 56,2 kWh (401 km WLTP) e 67,1 kWh (482 km WLTP), com carregamento DC até 174 kW — 30 a 80% em 17 minutos, ou seja, o tempo de um café e uma ida à casa de banho numa área de serviço da A1. A bagageira chega a 1.400 litros com os bancos rebatidos. Preços europeus a partir de 26.900 €; na Alemanha, 27.900 € na versão Life e 31.900 € na Design.

O Aion UT é o all-rounder do trio: 91% em Proteção, 88% em Pós-Colisão, cinco estrelas sem depender de pacotes opcionais. O Euro NCAP posiciona-o contra o Mini Aceman, o Renault 4 e o Volkswagen ID. Polo.
As reservas concentram-se todas na primeira fase. Depende demasiado do ecrã central para funções de condução, o reconhecimento de sinais de limite de velocidade acertou apenas 68% das vezes e não tem deteção de presença de criança. Para quem transporta crianças com regularidade, isto é um argumento a favor do Geely ou do Leapmotor.
Uma nota de honestidade: ainda não há preços nem ficha técnica europeia confirmada para o Aion UT. Quando a GAC anunciar valores para Portugal, saberemos em que posição real entra.
O Raval não falhou nos embates — 91% e 95% nas duas fases de colisão são resultados fortes, com pontuação máxima no impacto lateral contra barreira e no frontal de largura total. Falhou antes disso: 58% em Condução Segura e 66% em Prevenção de Colisão, abaixo dos limiares. Com o Safety Pack opcional sobe para 72% e 77%, e aí sim, cinco estrelas.
O mesmo aconteceu ao Kia K4, testado sob os protocolos de 2025: quatro estrelas de série, cinco com pacote opcional. O Euro NCAP passou a publicar duas classificações — a de base, que reflete o que vem de série em todas as versões europeias, e a opcional. Para o comprador, a leitura é simples: verifique sempre se as cinco estrelas do carro que está a ver correspondem ao equipamento de série ou a um extra que tem de pagar. Nos três chineses, correspondem ao de série.
O Renault 5 E-Tech recebeu quatro estrelas em dezembro de 2024, com 80% em ocupantes adultos, 80% em crianças, 76% em utilizadores vulneráveis e 68% em assistência à condução — abaixo do limiar de 70% para a quinta estrela. O Alpine A290 e o MG ZS Hybrid+ ficaram no mesmo patamar.
É tentador concluir que os chineses são hoje mais seguros do que o R5. Não é uma conclusão que se possa tirar destes números. O Renault foi avaliado pelo protocolo de 2024, com categorias e critérios diferentes, e o próprio Euro NCAP desaconselha a comparação direta entre gerações de protocolo. As classificações antigas continuam válidas até expirarem, mas não são a mesma métrica. O que se pode dizer com segurança é outra coisa: os três chineses passaram no exame mais difícil que existe hoje, e o R5 ainda não foi submetido a ele.
Nos resultados publicados a 2 de setembro de 2026, três elétricos chineses obtiveram cinco estrelas com os novos protocolos: o GAC Aion UT (66 / 74 / 91 / 88), o Geely E2 (79 / 72 / 86 / 95) e o Leapmotor B05 (66 / 77 / 92 / 89). Os valores correspondem, por ordem, às quatro Fases da Segurança do protocolo 2026 — Condução Segura, Prevenção de Colisão, Proteção em Colisão e Segurança Pós-Colisão —, cada uma pontuada até 100% e com um mínimo obrigatório. Ao contrário do sistema anterior, um bom teste de choque já não compensa sistemas de assistência fracos.
O Leapmotor B05 arrancou na Europa a partir de 26.900 €, com a versão Life alemã em 27.900 € e a Design em 31.900 €. A marca é distribuída em Portugal através da rede da Stellantis, pelo que os preços nacionais dependem dessa rede e devem ser confirmados no concessionário. Tecnicamente, oferece baterias de 56,2 kWh (401 km WLTP) ou 67,1 kWh (482 km WLTP), 160 kW no eixo traseiro e carregamento DC até 174 kW, com 30-80% em 17 minutos.
O Geely E2 foi lançado na Bélgica em agosto de 2026 por 21.490 € (19.490 € com desconto de lançamento de 2.000 €) e no Reino Unido a partir de 20.990 libras como EX2. A versão Pro usa uma bateria de 35 kWh para 252 km WLTP e a Max/Ultra sobe para 47 kWh e 345 km WLTP, sempre com um motor de 85 kW (114 cv) no eixo traseiro. A esse preço fica abaixo do Renault 5 (24.900 €) e é o modelo chinês com melhor nota em Condução Segura (79%), em parte por manter comandos físicos.
Até à data destes resultados do Euro NCAP não havia preço europeu nem ficha técnica completa divulgada para o GAC Aion UT, pelo que qualquer valor para Portugal seria especulação. O que já se sabe vem do próprio teste: cinco estrelas com 66 / 74 / 91 / 88, um bom desempenho em proteção de colisão, mas dependência do ecrã tátil central, apenas 68% de acerto no reconhecimento de sinais de limite de velocidade e ausência de deteção de presença de criança. O Euro NCAP posiciona-o contra o Mini Aceman, o Renault 4 e o VW ID. Polo.
Não é possível concluir isso diretamente. O Renault 5 E-Tech recebeu quatro estrelas em dezembro de 2024 com 80% de proteção de adultos, 80% de crianças, 76% de utilizadores vulneráveis e 68% em assistência à segurança — abaixo do limiar de 70% —, mas foi avaliado com o protocolo de 2024. O próprio Euro NCAP avisa que classificações de gerações diferentes de protocolo não devem ser comparadas entre si. A leitura útil é outra: no segmento dos citadinos elétricos acessíveis, a segurança deixou de ser o argumento que separa marcas europeias de marcas chinesas.
As marcas chinesas de carros elétricos deixaram de ser uma curiosidade. Representam já 7% das vendas de carros novos na UE e quase 10% no Reino Unido, e o número de modelos chineses testados pelo Euro NCAP multiplicou-se quase por dez desde 2021 — o primeiro foi avaliado em 2010.
Para o comprador português, três leituras práticas. Primeira: no segmento dos citadinos elétricos acessíveis, a segurança já não é o argumento que separa europeus de chineses. O Geely E2, a 21.490 €, fica abaixo do BYD Dolphin Surf (20.475 € na Bélgica, mas com equipamento diferente) e bem abaixo do Renault 5 (24.900 €) — e traz cinco estrelas de série. Segunda: os elétricos continuam isentos de ISV e beneficiam de IUC reduzido em Portugal, o que aproxima ainda mais estes preços do orçamento real de quem compra. Terceira: leia as quatro fases, não só as estrelas. Um carro com 92% em Proteção e 66% em Condução Segura não é o mesmo carro que um com 79% e 86%, mesmo que ambos mostrem cinco estrelas na brochura.
Fica o conselho do próprio Dr. Aled Williams, diretor de programa do Euro NCAP: "uma parte importante do percurso da segurança é a condução — não se esqueça de experimentar antes de comprar". Com sistemas de monitorização, avisos e ecrãs a pesar cada vez mais na nota final, meia hora ao volante diz-lhe coisas que a tabela não diz.