
"Não são o Santo Graal que todos imaginam." A frase não vem de um cético da mobilidade elétrica, mas de Robin Zeng, CEO da CATL, o maior fabricante de baterias para carros elétricos do mundo. Em poucas semanas, a CATL, a BYD e a Li Auto vieram arrefecer as expectativas: as baterias de estado sólido vão chegar, mas mais tarde, de forma mais seletiva e com menos impacto do que o marketing dos últimos anos fazia crer.
Para quem está a pensar comprar um elétrico em Portugal, a pergunta prática é simples: baterias de estado sólido, quando chegam? A resposta curta é que a produção em massa não deverá acontecer antes de 2030 — e, nos primeiros anos, só em modelos premium. A tecnologia não falhou. Falharam os calendários.
Os três gigantes chineses têm projetos avançados e todos apontam para 2027 como ano de arranque. Mas há uma enorme diferença entre "arranque" e "carro no stand".
A CATL confirmou aos investidores, em agosto, que vai iniciar a produção em pequena série de células de estado sólido em 2027. O problema está no nível de maturidade: em junho de 2026, a própria empresa situava a tecnologia no nível 4 de 9 da escala de maturidade tecnológica (TRL). Na prática, isto significa validação em laboratório e desenvolvimento de protótipos — o nível 9 corresponde à produção em massa.
Robin Zeng foi direto: um milhão de veículos com bateria de estado sólido até 2030 é "extremamente improvável". Segundo a CATL, só a partir desse volume anual é que a produção se torna rentável em larga escala. Entretanto, a empresa aposta forte no que já funciona: células LFP de carregamento ultrarrápido e baterias de iões de sódio.
Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, garantiu numa entrevista em Valência que a marca terá "no próximo ano" um modelo com tecnologia de estado sólido. Não revelou nome, data, especificações nem preço. É uma demonstração, não um lançamento comercial.
O roteiro da FinDreams, a divisão de baterias da BYD, é mais revelador:
Para termos noção da escala: 40.000 carros é uma gota no oceano para um fabricante que vende milhões por ano. Os primeiros modelos serão Yangwang e Denza, as marcas de luxo do grupo, onde o custo extra é mais fácil de absorver.
Lian Yubo, cientista-chefe da BYD, foi ainda mais claro: "três anos será difícil, cinco anos é mais realista" para uma utilização generalizada. E acrescentou que as baterias de iões de lítio com eletrólito líquido e as de estado sólido vão coexistir durante 15 a 20 anos. A LFP não vai desaparecer.
A Li Auto prevê uma utilização limitada em veículos em 2027 ou 2028. Até à produção em massa madura, Liu Zhimin, responsável pelas baterias da marca, estima mais cerca de cinco anos. Traduzindo: carros de série com esta tecnologia a chegar aos clientes em 2032 ou 2033.
"Continua a ser difícil cumprir em simultâneo os requisitos de longevidade, desempenho de carregamento e custo", explicou Liu. A marca desenvolve as suas próprias células desde 2020, tem uma joint venture 50/50 com a Sunwoda desde 2025 e já validou protótipos de baterias de estado sólido... nuns óculos inteligentes, os Livis, lançados em dezembro de 2025.
Numa bateria de estado sólido, o eletrólito líquido das células de iões de lítio é substituído por um material sólido — cerâmico, polímero ou vidro. As promessas são conhecidas: mais densidade energética, carregamento mais rápido, maior segurança contra incêndios e vida útil mais longa. Passar isto do laboratório para um carro é outra história.
A BYD aposta em eletrólitos de sulfuretos, com protótipos de 20 Ah e 60 Ah que visam perto de 400 Wh/kg ao nível da célula. Os obstáculos de engenharia são vários:
Há ainda um detalhe que costuma perder-se nos títulos: um valor em Wh/kg ao nível da célula não se traduz automaticamente no mesmo desempenho ao nível do pack. Um carro tem vibrações, variações de temperatura e milhares de ciclos de carga. É aí que a tecnologia ainda tem de provar o que vale.
O novo plano quinquenal chinês para a indústria de baterias, divulgado a 28 de setembro por sete entidades governamentais, fixa o objetivo de uma "utilização inicial em larga escala" das baterias de estado sólido até 2030. Repare-se na formulação: inicial. Nem Pequim promete a generalização até ao fim da década.
O mesmo plano define metas para as baterias de lítio atuais — 15.000 ciclos de carga para baterias de longa duração — e coloca as baterias de iões de sódio como complemento. Em paralelo, o plano para o setor automóvel aponta para 70% de quota de veículos de nova energia nas vendas de ligeiros de passageiros na China em 2030. Ou seja, a eletrificação avança a todo o gás com a química que já existe.
Na Europa, a Mercedes é quem mais tem mostrado. Um EQS equipado com células de lítio-metal da Factorial percorreu 1.205 km entre Estugarda e Malmö sem parar para carregar, com um pack que oferece até 25% mais autonomia do que a bateria de série com o mesmo peso e tamanho. Os testes em estrada decorrem desde fevereiro de 2025.

Em setembro de 2026, a marca reforçou a parceria com a taiwanesa ProLogium, garantindo acesso prioritário para testar as células cerâmicas de quarta geração. A ProLogium está a construir em Dunquerque, França, uma fábrica com capacidade até 44 GWh para clientes europeus. Tudo isto são programas de teste — não há modelo de produção nem data anunciados.
| Fabricante | Marco | Data |
|---|---|---|
| CATL | Produção em pequena série | 2027 |
| CATL | Mercado de massa | Não antes de 2030 |
| BYD | Série experimental (~1.000 veículos) | 2027 |
| BYD | Grande escala (~40.000 veículos) | ~2030 |
| Li Auto | Utilização limitada em veículos | 2027 ou 2028 |
| Li Auto | Produção em massa madura | ~2032-2033 |
| Toyota (com Idemitsu) | Lançamento de elétrico com estado sólido | 2027-2028 |
| Samsung SDI | Produção em massa de células | 2027 |
| Nissan | Elétrico com estado sólido | 2028 |
| Chery | Validação em veículo | 2027 |
| China (plano quinquenal) | Utilização inicial em larga escala | 2030 |
| Mercedes | Testes com Factorial e ProLogium | Sem data de produção |
A tendência é clara: 2027 e 2028 são anos de demonstração e pequenas séries. Volume a sério, só depois de 2030.
Aqui convém não baralhar conceitos. Uma bateria de estado sólido integral não tem qualquer líquido. Uma bateria semi-sólida mantém uma pequena quantidade de eletrólito líquido ou em gel — é mais fácil de fabricar e já está à venda, mas fica aquém do potencial de segurança e densidade energética da versão integral. É uma tecnologia de transição.
O exemplo mais próximo de nós é o MG4 Urban com bateria semi-sólida SolidCore. As células têm cerca de 5% de eletrólito líquido, contra cerca de 20% numa bateria de iões de lítio convencional. A bateria tem 53,95 kWh e anuncia 530 km no ciclo chinês CLTC, o que deverá traduzir-se em cerca de 400 km WLTP na Europa. A chegada ao mercado europeu está prevista para o final de 2026; no Reino Unido, aponta-se para cerca de £23.495, em linha com o MG4 Urban atual. Preço para Portugal? Ainda por anunciar.
Um detalhe honesto: o MG4 Urban atual, com bateria LFP de 53,9 kWh, já anuncia 258 milhas WLTP (cerca de 415 km). Ou seja, em autonomia homologada, a versão semi-sólida não traz um salto — as vantagens prometidas estão mais na segurança, no desempenho a frio e na longevidade. Na China, a NIO também já usa células semi-sólidas da WeLion.
Não deverá haver carros com bateria de estado sólido integral à venda em Portugal antes do final da década. Toyota (2027-2028) e Nissan (2028) são os fabricantes com calendários mais próximos, mas as primeiras séries chinesas, como a da BYD, rondam as 1.000 unidades e destinam-se a marcas de luxo. Na Europa, a ProLogium está a construir em Dunquerque, França, uma fábrica de até 44 GWh, o que poderá acelerar a oferta europeia depois de 2030.
Ainda não há preços anunciados, mas os primeiros modelos serão caros: a BYD vai estrear a tecnologia nas marcas de luxo Yangwang e Denza. Os precursores de sulfuretos usados nestas células custam dezenas de vezes mais do que os materiais de uma bateria de eletrólito líquido, e a CATL considera que só a partir de cerca de um milhão de veículos por ano a produção se torna rentável. Até lá, conte com um prémio significativo face a um elétrico com bateria LFP equivalente.
Uma bateria de estado sólido integral não tem qualquer eletrólito líquido, enquanto uma semi-sólida mantém uma pequena parte em líquido ou gel — cerca de 5% no MG4 Urban SolidCore, contra cerca de 20% numa bateria de iões de lítio convencional. A semi-sólida é mais fácil de fabricar e já está à venda, mas não atinge todo o potencial de densidade energética e segurança da versão integral. É uma tecnologia de transição, usada também pela NIO na China com células WeLion.
Não a curto prazo. Lian Yubo, cientista-chefe da BYD, prevê que as baterias de eletrólito líquido e as de estado sólido coexistam durante 15 a 20 anos e afirma que a LFP não vai desaparecer. O novo plano quinquenal chinês aposta também nas baterias de lítio atuais, com metas de 15.000 ciclos de carga, e nas baterias de iões de sódio como complemento, enquanto a CATL continua a investir em LFP de carregamento ultrarrápido.
Para a maioria dos condutores em Portugal, não compensa esperar: a produção em massa não deverá acontecer antes de 2030 e a Li Auto aponta para 2032-2033 para uma produção madura. Um elétrico comprado hoje já beneficia da isenção de ISV e de IUC, e a maioria das marcas oferece 8 anos de garantia na bateria. Adiar a compra vários anos significa abdicar dessas poupanças à espera de uma tecnologia que chegará primeiro aos carros de luxo.
Se as primeiras séries saem em 2027 e 2028, em quantidades de mil unidades e sob marcas como Yangwang ou Denza, a probabilidade de encontrar um carro com bateria de estado sólido integral num stand português antes do final da década é muito baixa. E quando chegar, virá primeiro nos segmentos mais caros.
Entretanto, as baterias atuais não estão paradas. Já hoje há elétricos com carregamento a várias centenas de kW e mais de 500 km de autonomia. Quando o estado sólido atingir escala, as químicas convencionais — LFP, iões de sódio, níquel melhorado — terão evoluído ainda mais, encolhendo a vantagem da nova tecnologia. O paralelo com o hidrogénio, que prometeu muito e entregou pouco nos ligeiros de passageiros, não é descabido.
Para a maioria dos condutores portugueses, não. Um elétrico comprado hoje beneficia já da isenção de ISV e de IUC, carrega em casa durante a noite e cobre sem dificuldade um Lisboa-Porto com uma paragem rápida na rede MOBI.E. Adiar a compra três, cinco ou sete anos à espera de uma tecnologia que chegará primeiro aos carros de luxo significa abdicar dessas poupanças durante todo esse tempo.
Faz mais sentido olhar para o que está no mercado e avaliar a autonomia real, a velocidade de carregamento e a garantia da bateria — a maioria das marcas cobre 8 anos. Se a curiosidade pela tecnologia pesar, o MG4 Urban semi-sólido é a forma mais acessível de a experimentar em breve.
A revolução das baterias de estado sólido pode muito bem acontecer, só que mais devagar e de forma mais seletiva do que se prometeu. O próximo teste real chega em 2027, quando a BYD, a CATL e a Toyota tiverem finalmente carros na estrada — é nessa altura que se vai perceber quem cumpre os calendários e quem volta a adiá-los.