
A 26 de agosto de 2026 a Xiaomi ligou o seu primeiro site internacional de automóveis, o xiaomiauto.com, com uma frase em destaque: "Officially Coming to Europe in 2027". Junto dela, algo bem mais concreto do que uma promessa de marketing — um formulário de contacto para concessionários e distribuidores, com endereço próprio, Autopartners@xiaomi.com.
Isso muda a natureza da notícia. Marcas anunciam ambições europeias com frequência; poucas abrem um canal de recrutamento de retalho três anos antes de vender o primeiro carro. Para quem em Portugal anda a namorar um SU7 nos vídeos do YouTube, a pergunta prática é outra: quando é que os carros elétricos da Xiaomi chegam a Portugal, e por quanto?
William Lu (Lu Weibing), presidente da Xiaomi, foi claro sobre o arranque: a expansão internacional começa formalmente no terceiro ou quarto trimestre de 2027. Segunda metade do ano, portanto — não janeiro.
A ordem de países também já é conhecida: Alemanha primeiro, com França e Itália a seguir. Os mercados de volante à direita, como o Reino Unido e a Irlanda, ficam apontados para 2028. A CnEVPost relata ainda uma prioridade estratégica de "volante à direita antes de volante à esquerda" atribuída a Lu, o que não encaixa bem com um arranque pela Alemanha — é uma das poucas peças da história que continua contraditória.
Portugal não aparece em nenhuma destas listas. Não é um sinal de desinteresse, é apenas como estas coisas funcionam: as marcas chinesas entram pelos mercados grandes e descem depois para a Ibéria, normalmente com um ou dois anos de atraso. Se o padrão da BYD, da MG e da Leapmotor se repetir, um concessionário Xiaomi em Lisboa ou no Porto é conversa para 2028 ou 2029, não para 2027.
O site global mostra o SU7, o SU7 Ultra, o SU7 Ultra Prototype, o YU7 GT, o Sky Nomad e o concept Vision Gran Turismo. Mostrar não é vender: a própria Xiaomi ainda não confirmou quais destes modelos atravessam a fronteira, e não há preços, fichas técnicas nem canais de venda específicos por país.
Dito isto, os dois candidatos óbvios são o sedan SU7 e o SUV YU7.
| SU7 | YU7 | SU7 Ultra | |
|---|---|---|---|
| Carroçaria | Sedan, 4,997 m | SUV, 4,99 x 2,00 x 1,60 m | Sedan |
| Arquitetura | 752 V (Std/Pro) / 897 V (Max) | 800 V SiC | 897 V |
| Potência | 320 cv a 690 cv | 508 kW / 691 cv, 866 Nm | 1.548 cv, 1.770 Nm |
| 0-100 km/h | 5,0 s a 2,6 s | 3,23 s (Max) | 1,98 s |
| Bateria | 73,6 kWh LFP a 101 kWh NMC | 96,3 kWh LFP a 101,7 kWh NMC | 93,7 kWh CATL Qilin II |
| Autonomia | até 902 km CLTC (~700-750 km WLTP est.) | até 835 km CLTC (~600-650 km WLTP est.) | 630 km CLTC |
| Preço China | desde ~28.000€ | ~30.000€ a 39.000€ | desde ~64.000€ |
O SU7 Max promete recuperar 670 km de autonomia em 15 minutos numa tomada compatível. Traduzido para a realidade de quem faz Lisboa-Porto: uma paragem de café no Mealhada chegaria para voltar a casa sem pensar no assunto. O YU7 arrancou com mais de 200.000 reservas nos primeiros três minutos de encomendas na China e ultrapassou 150.000 entregas em seis meses — é o modelo que mais vende lá dentro, e é curiosamente o menos falado por cá.
Atenção aos números de autonomia: 902 km é ciclo CLTC, o padrão chinês, sempre otimista. As estimativas WLTP realistas andam nos 700-750 km para o SU7 e 600-650 km para o YU7. Continua a ser muito bom, mas não é o mesmo número.

Aqui entra a matemática que estraga a festa. A União Europeia aplica cerca de 30,7% de encargos aos elétricos fabricados na China — 20,7% de direitos de compensação mais os 10% de direito aduaneiro normal. A Xiaomi não anunciou fábrica europeia nem parceria de montagem local, por isso a tarifa fica de pé.
Somando taxas, homologação europeia e adaptação à ficha CCS2, as estimativas de terceiros — não são números da Xiaomi — apontam para um SU7 entre 35.000€ e 40.000€ e um YU7 entre 45.000€ e 55.000€ na Europa. O SU7 Ultra passaria dos 80.000€.
Mesmo assim, o enquadramento é favorável. Um SU7 a 37.000€ com 690 cv e ~700 km WLTP fica abaixo do Tesla Model 3 (42.990€) e do BYD Seal (46.990€), e muito abaixo do BMW i4 (59.950€). Em Portugal há ainda a isenção de ISV para elétricos puros e o IUC reduzido, que já hoje explicam boa parte da procura por elétricos chineses. O que estas estimativas não incluem é a margem do importador nacional — que ainda não existe.
Já há SU7 a circular na Europa por importação paralela, através de importadores como a alemã CEVM. Os preços são proibitivos: 73.000€ a 98.000€ por um carro que na China custa 28.000€.
E há um detalhe técnico que faz mais estragos do que a fatura. Esses carros vêm com ficha GB/T, o padrão chinês, incompatível com o CCS2 europeu. Com adaptador, o carregamento rápido fica limitado a cerca de 90 kW em vez dos 350 kW que a arquitetura de 800 V permite. Numa viagem Lisboa-Algarve isso é a diferença entre 15 minutos e quase uma hora parado num posto. Somando a ausência de rede de assistência oficial e de garantia em Portugal, importar hoje é um exercício para colecionadores, não para uso diário.
A infraestrutura industrial não é fictícia. Em abril de 2026 abriu um centro de I&D em Munique com cerca de 50 pessoas dedicadas a alto desempenho, design e dinâmica de veículo, liderado por gente vinda da BMW e da Porsche: Rudolf Dittrich (programa BMW M4 GT3), Claus-Dieter Groll (Série 3, Z4 e X), Kai Langer (designer do BMW i8), Fabian Schmoelz-Obermeier (Porsche 911 GT3 RS, Lamborghini Temerario) e Dusan Sarac (Rolls-Royce Cullinan).
O SU7 Ultra recebeu homologação para circular em estrada europeia em julho de 2025 e foi matriculado em Munique com a chapa "M SU7088E". Em novembro de 2025, Lu Weibing conduziu-o cerca de 800 km entre Berlim, Hamburgo e Frankfurt, chegando aos 260 km/h em autoestrada e classificando a rede de carregamento alemã como "bem desenvolvida no conjunto".
O que falta é o mais difícil e o mais aborrecido: rede comercial, oficinas, peças, garantia. Daí o formulário para concessionários estar online três anos antes do primeiro carro.
Em 2027 a Xiaomi entra num mercado onde a BYD, a Leapmotor, a MG, a Omoda e a Xpeng já têm concessionários, histórico de garantia e clientes com quilómetros feitos. A Leapmotor foi a marca de crescimento mais rápido na Europa no primeiro semestre de 2026. Em Portugal, várias destas marcas já têm presença em praticamente todos os distritos.
A Xiaomi chega com uma vantagem que nenhuma outra marca chinesa tem: reconhecimento de marca junto de quem já usa telemóveis, TVs e aspiradores da casa, e um ecossistema (HyperOS, Xiaomi Pilot, motores HyperEngine) que liga o carro a esse universo. Chega também com fragilidades: 216.322 carros entregues nos primeiros sete meses de 2026, apenas 39% da meta anual de 550.000, e um prejuízo operacional automóvel de 2,6 mil milhões de yuan (~330 milhões de euros) no segundo trimestre. A empresa projeta rentabilidade na segunda metade de 2026 — e planeou a entrada europeia para depois disso.
Não há data para Portugal. A Xiaomi confirmou apenas a entrada na Europa no segundo semestre de 2027 (Q3 ou Q4), começando pela Alemanha e seguindo depois para França e Itália, com os mercados de volante à direita como o Reino Unido apontados para 2028. Portugal não consta de nenhuma lista anunciada, pelo que uma chegada cá seria uma segunda vaga — realisticamente 2028 ou mais tarde, e só depois de existir importador, homologação e rede de assistência.
A Xiaomi ainda não divulgou preços europeus. As estimativas de terceiros apontam para cerca de 35.000 a 40.000 euros para o SU7 e 45.000 a 55.000 euros para o SUV YU7, contra os cerca de 28.000 euros do SU7 na China. A diferença explica-se pela sobretaxa da UE de aproximadamente 30,7% sobre elétricos fabricados na China (20,7% de direitos compensatórios mais 10% de direito normal), pela homologação europeia e pela adaptação ao carregamento CCS2. Como a Xiaomi não anunciou fábrica nem parceiro industrial na Europa, as tarifas continuam a pesar no preço final.
Na prática, não. Os importadores paralelos europeus pedem entre 73.000 e 98.000 euros por um SU7, mais do dobro do preço estimado para a versão oficial europeia. Além disso, os carros vindos da China trazem ficha GB/T: com adaptador, o carregamento rápido fica limitado a cerca de 90 kW em vez dos até 350 kW nativos. Somam-se ainda ISV, IUC, homologação individual e a ausência de garantia oficial e rede de assistência em Portugal.
A Xiaomi abriu no seu primeiro site internacional, xiaomiauto.com, um canal de contacto para parceiros de distribuição através do email Autopartners@xiaomi.com. O anúncio é europeu e não identifica países, pelo que grupos automóveis portugueses podem manifestar interesse por essa via, mas não existe qualquer programa de concessionários anunciado para Portugal. O recrutamento arranca pelos mercados da primeira fase — Alemanha, França e Itália.
Quem quiser um elétrico chinês em 2026 já tem escolha com rede oficial: BYD, Leapmotor (a marca de maior crescimento na Europa no primeiro semestre de 2026), MG, Omoda e Xpeng vendem cá com garantia, assistência e ficha CCS2 de série. Todas terão pelo menos mais um ano de rede consolidada quando a Xiaomi chegar à Europa em 2027. Esperar pela Xiaomi só faz sentido para quem valoriza a integração com o ecossistema de smartphones da marca e não tem pressa.
Para quem está em Portugal, três sinais valem mais do que qualquer comunicado: o anúncio de um importador ou grupo de distribuição para a Península Ibérica, a confirmação de quais modelos são homologados para venda na UE com ficha CCS2, e a primeira tabela de preços alemã — porque é a partir dela que se calculam os preços portugueses. Até lá, quem precisa de um elétrico em 2026 ou 2027 tem escolha a sério no mercado nacional, e esperar três anos por uma marca sem oficina cá perto raramente compensa.