
Mil milhões de euros, dois novos Peugeot eléctricos, dois Jeep off-road eléctricos e arranque marcado para 2027. Foi este o tamanho do acordo Stellantis Dongfeng China assinado a 15 de Maio na fábrica DPCA em Wuhan — e mesmo do outro lado do mundo, há razões para o comprador português prestar atenção.
A Stellantis é dona de marcas que enchem as ruas portuguesas: Peugeot, Citroën, Opel, Fiat e Jeep. Tudo o que mexer no seu portefólio elétrico acaba por chegar aqui, mais cedo ou mais tarde. E este acordo mexe — muito.
Stellantis e Dongfeng prolongaram uma parceria que já dura 34 anos com um investimento superior a 8 mil milhões de yuans (cerca de mil milhões de euros). A Stellantis entra com aproximadamente 130 milhões de euros; o resto vem do lado chinês — Dongfeng, província de Hubei e município de Wuhan, através de fundos como o Yangtze River Industry Investment Group.
A produção arranca em 2027 na fábrica DPCA Wuhan Peugeot Jeep, que já existe. Não há construção nova. Há, sim, uma fábrica em queda livre — passou de 711.000 carros produzidos em 2015 para apenas 51.500 em 2025 — que ganha agora uma segunda vida com modelos eléctricos.
O acordo inclui também um memorando de entendimento não vinculativo sobre cooperação alargada em fabrico, I&D e desenvolvimento industrial. Ou seja: este pode ser só o primeiro capítulo.
| Marca | Modelos | Destino |
|---|---|---|
| Peugeot | 2 novos eléctricos baseados no Concept 6 e Concept 8 | China e exportação global |
| Jeep | 2 SUV/off-road eléctricos | Mercados globais |
Os Peugeot vão buscar inspiração aos protótipos Concept 6 e Concept 8 apresentados no Salão Automóvel de Pequim 2026. Para a Jeep, é o regresso à produção local na China depois do fim do joint venture com a GAC em 2022.
Plataformas, baterias, autonomias e potências? Ainda nada confirmado. É o ponto fraco do anúncio.

A primeira leitura é geográfica: estes carros são feitos na China, e a UE aplica tarifas adicionais a eléctricos importados de lá. Se os Peugeot de Wuhan chegarem à Europa, vão chegar com sobretaxa — o que limita a vantagem de preço que se esperaria de um produto feito na China.
Mas há uma segunda leitura, mais interessante. A Stellantis está a montar uma estratégia de dois eixos: produzir marcas ocidentais na China para exportação, e ao mesmo tempo trazer plataformas eléctricas chinesas para fábricas europeias. O Leapmotor T03 e C10 já vêm de Zaragoza e Madrid, em Espanha — e isso permite-lhes escapar às tarifas. Em 2025, a Leapmotor entregou mais de 40.000 carros na Europa, com 850 pontos de venda activos.
Para o português que ande à procura de carros eléctricos chineses Portugal 2026, isto significa que os modelos da Stellantis com ADN chinês vão chegar por dois caminhos diferentes — e com preços muito diferentes.
A Leapmotor é, hoje, a aposta mais visível da Stellantis no eléctrico chinês. A Stellantis detém 21% da empresa desde 2023, e o joint venture internacional é 51% Stellantis / 49% Leapmotor. Em Abril de 2026, a Leapmotor vendeu 57.161 carros no mercado chinês (mais 101,9% que no ano anterior) e teve um recorde mensal de 71.387 entregas globais.
O detalhe que muda tudo para nós: produção em Espanha. O T03 e o C10 sairão de Zaragoza ou Madrid já com matrícula europeia, sem tarifas chinesas a engordar o preço. Para o comprador português, é a forma mais directa de aceder a tecnologia eléctrica chinesa sem pagar o prémio aduaneiro.
Os modelos do novo acordo DPCA Wuhan Peugeot Jeep seguem o caminho contrário. São feitos na China, e quando atravessarem a fronteira europeia levam tarifas. A Peugeot vai dizer que são "carros globais", e tecnicamente são — mas o preço final em Portugal vai reflectir o caminho que fizeram.
Os dois Jeep eléctricos são, ainda assim, uma novidade importante. A marca tem ficado para trás na transição eléctrica e estes off-road NEV podem ser a primeira resposta competitiva. Se a engenharia chinesa entregar autonomia e preço, podem mexer com o segmento dos SUV eléctricos médios em Portugal.
A Stellantis fechou 2025 com um prejuízo líquido de 22,3 mil milhões de euros. O novo CEO Antonio Filosa herdou um grupo a precisar de cortar custos e acelerar a transição eléctrica em simultâneo. A China oferece as duas coisas: plataformas eléctricas mais baratas para desenvolver, e fábricas com capacidade ociosa para reativar.
Não é por acaso que outros chineses estão à porta da Stellantis. A BYD anda em conversações para usar fábricas europeias subaproveitadas. A FAW Hongqi negoceia o uso da fábrica de Zaragoza. A própria Dongfeng já visitou instalações na Alemanha e Itália. Em paralelo, há ainda negociações entre Maserati, Huawei e JAC para um modelo eléctrico de luxo previsto para a segunda metade de 2027.
A leitura é clara: a indústria automóvel europeia está a abrir-se à engenharia chinesa, e a Stellantis é o caso mais avançado.
A produção arranca em 2027 na fábrica DPCA em Wuhan, com dois Peugeot eléctricos (baseados nos protótipos Concept 6 e Concept 8) e dois Jeep off-road eléctricos destinados a mercados globais. A chegada a Portugal depende ainda de aprovações regulatórias e do plano de distribuição europeu da Stellantis, pelo que não se esperam unidades nos concessionários antes do final de 2027 ou início de 2028.
Os eléctricos fabricados na China estão sujeitos às tarifas adicionais aplicadas pela União Europeia, que se somam aos 23% de IVA e ao ISV em Portugal. Isto significa que os Peugeot e Jeep produzidos em Wuhan chegam com sobretaxa, anulando grande parte da vantagem de preço típica de um produto chinês — ao contrário do Leapmotor T03 e C10, montados em Zaragoza e Madrid, que escapam às tarifas.
O acordo de mil milhões de euros (8 mil milhões de yuans) confirma que a Stellantis vai usar engenharia chinesa em modelos Peugeot, Jeep, Citroën, Opel e Fiat vendidos cá. Para o comprador português, isto traduz-se em duas rotas: modelos com ADN chinês montados em Espanha (mais baratos, via Leapmotor) e modelos importados directamente da China (mais caros, devido às tarifas). Quem está a pensar comprar elétrico no próximo ano e meio deve esperar pelos próximos anúncios de preços.
A Jeep tem ficado para trás na transição eléctrica e os dois novos SUV/off-road NEV produzidos com a Dongfeng são a primeira aposta verdadeiramente competitiva da marca neste segmento. Plataformas, baterias e autonomias ainda não foram confirmadas, mas o objectivo declarado é exportar para mercados globais, incluindo a Europa, com potencial para mexer no segmento dos SUV eléctricos médios em Portugal — desde que o preço final, depois de tarifas, seja competitivo.
Além da Dongfeng, a Stellantis detém 21% da Leapmotor desde 2023 — que entregou mais de 40.000 carros na Europa em 2025 com 850 pontos de venda activos. A BYD está em conversações para usar fábricas europeias subaproveitadas da Stellantis, a FAW Hongqi negoceia o uso da fábrica de Zaragoza, e há ainda negociações entre Maserati, Huawei e JAC para um eléctrico de luxo previsto para a segunda metade de 2027. A pressão do prejuízo de 22,3 mil milhões de euros em 2025 está a acelerar estas parcerias.
Os primeiros carros do acordo só saem em 2027 e ainda faltam aprovações regulatórias. Mas a direcção está definida. Para Portugal, vale a pena acompanhar três coisas: o calendário de chegada dos Peugeot Concept 6 e 8 derivados à Europa, o efeito real das tarifas UE no preço final, e a expansão da rede Leapmotor — provavelmente o canal mais imediato para experimentar tecnologia eléctrica chinesa com chancela Stellantis. Quem está a pensar em comprar elétrico no próximo ano e meio, faria bem em esperar pelos próximos anúncios de preços antes de fechar negócio.