
A Sono Motors GmbH fechou as portas no último dia de julho de 2026 e abriu processo de insolvência. É a segunda vez em três anos — a primeira foi em maio de 2023 — e desta vez não há plano B. A insolvência da Sono Motors encerra o projeto de carro solar mais ambicioso que a Europa produziu: o Sion, um hatchback com 330 células fotovoltaicas no tejadilho, nas portas e no capô, que recolheu quase 10.000 pré-encomendas e nunca entregou uma única unidade a um cliente.
O que resta está à venda. A empresa de Munique colocou no mercado três pacotes: o sistema de integração solar desenvolvido para o Sion, a eletrónica de potência — sobretudo o controlador de carga solar para veículos elétricos — e o Solar Data Services, o software de gestão de energia. Junta-se a isto toda a propriedade intelectual, componentes de hardware, documentação técnica e a própria marca Sono Solar.
O golpe veio de dentro. Em março de 2026, a Sono Group N.V. — empresa-mãe e principal investidora — anunciou a saída imediata da divisão solar e entregou a filial aos diretores-gerais Denis Azhar e Jan Schiermeister sem qualquer apoio financeiro. A seguir, a casa-mãe mudou de ramo: passou a comprar Bitcoin e a negociar opções.
Sobraram cerca de três meses para encontrar um novo investidor. As conversas, segundo a empresa, mantiveram-se "intensamente até ao fim", mas nenhuma fechou. O comunicado final resume-o sem rodeios: a empresa não conseguiu assegurar financiamento sustentável durante a fase de reestruturação.
"Uma década de know-how em mobilidade solar é verdadeiramente única", disse Denis Azhar. Schiermeister agradeceu à comunidade, clientes, parceiros e equipa, e deixou a nota de fé de sempre: acredita que a energia solar acabará por ser uma característica de série nos automóveis. Talvez venha a ser — só não será com o nome deles no capô.

O Sion nasceu como conceito em 2012 e a empresa foi fundada em 2016 por Laurin Hahn, Jona Christians e Navina Pernsteiner. O financiamento veio quase todo da comunidade: mais de 2 milhões de euros em crowdfunding logo em 2016-17, cerca de 55 milhões acumulados até janeiro de 2020, com depósitos de clientes que chegavam aos 3.000 euros. Em junho de 2018 já havia 5.000 reservas; no final de 2019, perto de 10.000.
Estes são os números finais anunciados para o modelo de produção — vários deles mudaram ao longo dos anos, por isso convém lê-los como intervalos e não como certezas de catálogo.
| Especificação | Valor |
|---|---|
| Carroçaria | Segmento B, hatchback 5 portas, 5 lugares |
| Bateria | 54 kWh LFP (sem cobalto, níquel ou manganês) |
| Autonomia NEDC | 320 km |
| Autonomia realista | cerca de 250 km |
| Ganho solar (média anual) | cerca de 112 km por semana (cerca de 10 km/dia) |
| Ganho solar (pico de verão) | até 245 km por semana (máx. cerca de 34 km/dia) |
| Células solares | 330 módulos monocristalinos, 7,5 m², 21% de eficiência, 1.208 Wp de pico |
| Motor | 120 kW (163 cv), 270 Nm, tração dianteira |
| 0-100 km/h | 9,0 s |
| Velocidade máxima | 140 km/h |
| Carregamento DC | 50 a 75 kW conforme a versão do projeto (30 min até 80% na especificação de 50 kW) |
| Carregamento AC | 3,7 a 22 kW Tipo 2; 2,5 h até 80% |
| Bidirecional | 11 kW para outros elétricos; 2,7 kW / 230 V em tomada Schuko |
| Dimensões (C/L/A) | 4.290 / 1.830 / 1.670 mm |
| Distância entre eixos | 2.770 mm |
| Peso | 1.400 kg |
| Bagageira | 650 l (1.250 l com bancos rebatidos) |
| Preço anunciado | 25.500 € iniciais, revisto para 29.900 € em abril de 2022 |
| Garantia prevista | 2 anos / 100.000 km |
A parte bidirecional merecia mais atenção do que teve. Um Sion podia carregar outro elétrico a 11 kW ou alimentar equipamentos domésticos a 230 V — a mesma função V2L que hoje aparece em modelos chineses e que é genuinamente útil em campismo, obras ou cortes de energia.
O lançamento foi escorregando: meados de 2019, depois final de 2020, depois 2022, depois primeiro semestre de 2023. A produção estava contratada à Valmet Automotive, em Uusikaupunki, na Finlândia, com meta de 43.000 carros por ano e ambição de chegar a 260.000 unidades em 2028. Em fevereiro de 2023, o programa foi cancelado. Em agosto de 2025, os 10 protótipos restantes e o ferramental foram leiloados.
Este é o ponto que interessa reter: a tecnologia funcionava. O que faltou foi um mercado a crescer depressa que chegue para a pagar.
Depois do colapso de 2023 e de um investimento do fundo Yorkville em novembro desse ano, a empresa rebatizou-se Sono Solar e virou-se para o B2B em 2024 — vender integração solar a fabricantes e a operadores de frotas em vez de construir carros. Aí bateu numa parede diferente. Os gestores de frota decidem por período de retorno, e com preços de combustível moderados as contas do retrofit não fechavam em prazo aceitável.
A neerlandesa Lightyear, o outro grande nome do carro solar europeu, encontrou exatamente o mesmo muro; só recentemente demonstrou um Nissan Ariya com painéis solares integrados. Duas empresas, duas falências, o mesmo diagnóstico.
O curioso é onde estava o valor real. Não nos painéis — esses compram-se — mas na eletrónica: o controlador de carga solar que gere as flutuações de tensão provocadas pelo sombreamento parcial constante de pontes, edifícios e árvores. E, sobretudo, na Allgemeine Betriebserlaubnis, a homologação geral alemã que a Sono Solar detinha para integração solar em veículos comerciais. Segundo a própria empresa, vale mais do que as patentes.
O contexto europeu não ajuda a ler isto como um caso isolado. A Northvolt caiu em março de 2025 depois de queimar mais de 15 mil milhões de dólares. Fisker, Arrival, Canoo, Lilium, Volocopter — a estimativa é de que 90% das startups de veículos elétricos falham, com mais de 25 mil milhões de dólares destruídos no ciclo 2020-2025. Do outro lado, o apoio estatal chinês cortou cerca de 30% no custo unitário das baterias face às europeias. A resposta de Bruxelas foi um "battery booster" de 1,5 mil milhões de euros em empréstimos sem juros. Compare-se com o que a China injetou e percebe-se a assimetria.

Aqui há uma ironia difícil de ignorar. Os números do Sion — cerca de 112 km por semana em média, até 245 km em pico — foram calculados para a Alemanha. Portugal recebe bastante mais sol: falamos de valores de irradiação anual na ordem dos 1.700 a 1.900 kWh/m² no sul do país, contra cerca de 1.000 a 1.100 kWh/m² na Alemanha. Um Sion estacionado em Faro viveria muito mais perto do limite superior desse intervalo do que da média alemã.
Traduzindo para o dia a dia: um trajeto casa-trabalho de 15 a 20 km em Lisboa ou no Porto poderia, num verão português, ser coberto em boa parte pelo que a carroçaria recolhia enquanto o carro estava parado ao sol. Não é autonomia infinita, é menos uma ida à tomada por semana. Para quem estaciona na rua e não tem carregador em casa — a realidade de muita gente nas cidades portuguesas — isso teria valor real.
O problema é que ninguém chegou a testá-lo aqui. E é aí que a promessa solar deixa de ser um argumento de compra: um carro que não existe tem zero km de autonomia, esteja o sol onde estiver. Se quiser reduzir a fatura energética com sol português, o caminho hoje é o oposto — painéis no telhado de casa e um elétrico normal a carregar durante o dia.
O desfecho da Sono deixa uma lição concreta para quem anda a ver carros no mercado nacional, sobretudo em usados. Milhares de pessoas puseram até 3.000 euros de depósito num carro que nunca existiu. Quem compra um usado de uma marca que entretanto desaparece não perde o carro, mas perde três coisas que custam dinheiro:
Nada disto significa evitar marcas recentes por princípio — várias construtoras chinesas entraram em Portugal nos últimos anos com redes de assistência sérias e volumes que garantem peças. Significa fazer duas perguntas antes de assinar: quem assegura a garantia se o construtor sair do mercado, e quantas oficinas certificadas existem a menos de uma hora de casa. Um preço atrativo num carro órfão deixa de ser barato à primeira avaria.
A Sono Motors GmbH, de Munique, cessou a atividade operacional a 31 de julho de 2026 e abriu processo de insolvência, anunciado publicamente a 3 e 4 de agosto. É a segunda insolvência em três anos — a primeira foi em maio de 2023, quando o programa do Sion já tinha sido cancelado em fevereiro desse ano. O gatilho final foi a saída da empresa-mãe Sono Group N.V. da divisão solar em março de 2026, que deixou aos diretores-gerais cerca de três meses para encontrar novo investimento.
Os 330 módulos monocristalinos integrados na carroçaria (7,5 m², 21% de eficiência, 1.208 Wp de pico) rendiam cerca de 112 km por semana em média anual — perto de 10 km por dia — e até 245 km por semana em condições de pico, o equivalente a uns 34 km diários. Estes valores foram calculados para a irradiação alemã, na ordem dos 1.000 a 1.100 kWh/m² por ano; no sul de Portugal, com 1.700 a 1.900 kWh/m², o carro viveria muito mais perto do limite superior.
O preço inicial anunciado era de 25.500 euros com IVA alemão incluído (ou 16.000 euros sem bateria), revisto em abril de 2022 para 29.900 euros. A ficha técnica final previa uma bateria LFP de 54 kWh sem cobalto, 320 km de autonomia NEDC (realisticamente perto de 250 km), motor de 120 kW / 163 cv, 140 km/h de velocidade máxima, carregamento DC até 75 kW e carregamento bidirecional de 11 kW. Nenhuma unidade chegou a ser entregue a um cliente.
A Sono Motors juntou mais de 55 milhões de euros até janeiro de 2020 entre crowdfunding e pré-encomendas, com cerca de 10.000 reservas no final de 2019 e depósitos que chegavam aos 3.000 euros. Com o cancelamento do programa em fevereiro de 2023 e a insolvência seguinte, os depósitos de clientes passaram a ser créditos comuns dentro do processo — a posição mais frágil na hierarquia de credores, em que a recuperação total é rara. Em agosto de 2025 os ativos remanescentes, incluindo 10 protótipos e ferramentas de produção, foram leiloados.
A garantia contratual do construtor — as tais promessas de sete ou oito anos de bateria — deixa de ter contraparte quando o fabricante entra em insolvência. Continua a valer a garantia legal do vendedor em Portugal, do stand ou do particular, mas essa cobre defeitos já existentes na entrega e não substitui a garantia de fábrica. Antes de comprar um elétrico de uma marca recente, vale a pena confirmar quem assegura a garantia se o construtor sair do mercado e quantas oficinas certificadas existem perto de casa, porque um carro órfão perde valor residual e complica o acesso a peças.
O que sobra da Sono Motors é um lote de tecnologia à espera de comprador em contact@sono-solar.com. É bem possível que o controlador de carga solar reapareça daqui a uns anos num camião frigorífico ou numa carrinha de distribuição, onde as contas fecham melhor do que num carro de família. A célula solar no automóvel não morreu — só ficou provado que não chega para sustentar uma marca sozinha.