
A frase é de Hervé Eloin, CEO da MyBatteryHealth, uma empresa que já fez mais de 80.000 diagnósticos a baterias de elétricos. E resume bem o problema de quem procura um SOH bateria carro elétrico usado credível: a percentagem que aparece no anúncio, no painel ou no relatório do stand não é uma medição. É uma estimativa.
Isso não significa que o número não sirva para nada. Significa que precisa de contexto — idade, quilómetros, histórico de carregamento e, idealmente, quem fez o teste e como.
Não existe nenhum sensor no carro que meça o estado de saúde da bateria. O BMS — o sistema de gestão da bateria — recolhe tensão, corrente, temperatura e fluxos de energia, e depois calcula uma capacidade estimada através de algoritmos proprietários que os fabricantes praticamente nunca divulgam.
Cada marca usa métodos diferentes, frequências de recalibração diferentes e margens de segurança diferentes. Duas questões práticas saem daqui:
Um artigo académico publicado em 2026 no arXiv vai mais longe e defende que o reporte de SOH dos fabricantes falha a validação independente, com desvios dependentes do modelo e difíceis de prever. É um preprint, ainda sem revisão por pares — vale como sinal de alerta, não como prova.
Os números da MyBatteryHealth, que recalcula a capacidade a partir dos dados brutos do veículo e compara com o valor do BMS, dão uma imagem mais tranquilizadora do que o alarmismo sugere:
| Resultado da comparação | Percentagem dos casos |
|---|---|
| Desvio até 2 pontos percentuais | 94% |
| Recálculo pelo menos 3 pontos abaixo do BMS | 2% |
| Recálculo pelo menos 3 pontos acima do BMS | 4% |
| Desvio médio | −0,56 pontos |
| Maior desvio observado | 5,8 pontos |
Ou seja: na esmagadora maioria dos casos o BMS está perto da verdade. O problema é que não sabemos de antemão se o carro que estamos a ver é um dos 94% ou um dos 6%. Os próprios relatórios da empresa trazem uma margem de precisão de ±2 pontos percentuais e uma nota de A a E, precisamente porque tratam o SOH como estimativa.
E isto tem tradução prática: cinco pontos de SOH valem cerca de 20 a 25 km num carro com 450 km de autonomia. Numa viagem Lisboa–Porto, é a diferença entre parar ou não parar.
A Geotab analisou mais de 22.700 elétricos de 21 modelos diferentes através de telemática. A média é de 2,3% de degradação por ano, o que projeta cerca de 81,6% de SOH aos 8 anos. Curiosamente, o estudo de 2023 apontava para 1,8%/ano — a subida é atribuída ao aumento do carregamento rápido de alta potência.
O que separa um carro que envelhece bem de um que envelhece mal:
| Fator | Degradação anual |
|---|---|
| Carregamento DC pouco frequente | 1,5% (≈88% aos 8 anos) |
| Carregamento DC frequente acima de 100 kW | 3,0% (≈76% aos 8 anos) |
| Clima quente (mais de 35% dos dias acima de 25 °C) | +0,4% adicional |
| Mais de 80% do tempo fora da janela 20–80% de carga | 2,0% (contra 1,4%) |
| Carrinhas e monovolumes | 2,7% |
| Ligeiros de passageiros | 2,0% |
| Modelos maduros, já com anos de mercado | 1,4% |
Duas leituras importam para quem compra em Portugal. A primeira: o calor conta. Os nossos verões, sobretudo no Sul e no interior, colocam muitos carros na categoria de clima quente do estudo — e um elétrico que passou anos estacionado à rua com 100% de carga em Beja não envelheceu como um que dormia numa garagem no Porto. A segunda: a famosa regra dos 20–80% pesa menos do que se diz. Só há penalização significativa quando o carro passa mais de 80% do tempo nos extremos.
Há ainda um padrão útil na hora de olhar para o quilometragem: segundo a AVILOO, a maior parte da capacidade perde-se nos primeiros 25.000 km, e depois a curva achata. Um carro com 40.000 km e 93% não é necessariamente melhor aposta do que um com 90.000 km e 91%.
Como referência de mercado, para um elétrico com 3 a 6 anos:
Contexto outra vez: 92% num carro de dois anos com 35.000 km é um mau resultado; 92% num Model 3 Performance de 2020 com quase 40.000 km — um caso real testado pela AVILOO — dá 1,3% de perda por ano e uma projeção de continuar acima dos 70% aos 20 anos.
E o SOH não é tudo. Vale a pena perguntar também pelo equilíbrio de tensão entre células, pela resistência interna e pelo comportamento térmico. Uma bateria com 92% e células muito desequilibradas é pior negócio do que uma com 88% a envelhecer de forma homogénea.

A CARA-Europe, associação europeia de remarketing automóvel, certifica testes de saúde da bateria em duas classes — e a diferença entre elas é exatamente a diferença entre confiar no BMS ou não:
Entre os fornecedores com selo CARA Approved® estão nomes que operam em Portugal e no resto da UE: AVILOO Flash Test, DEKRA Battery SOH Report, TÜV NORD BatterieCheck, Autel Blitz Test, MAHLE E-SCAN, LAUNCH Battery Index Test, Moba Certify Pro, Power Cruise Control PKC, vsNEW e Generational Battery Health Check.
Preços de referência, para perceber o que está em jogo:
Vale a pena notar que a AVILOO lançou em julho de 2026 uma garantia de bateria para elétricos usados, com base no FLASH Test: um ano de cobertura, 96% dos modelos, indemnização de 2.700 libras mais devolução do custo do teste se o SOH cair abaixo do nível garantido. Os parceiros incluem Mercedes-Benz, Volvo, Porsche Holding, Ayvens, Arval, BCA e Cox Automotive. É um sinal de para onde o mercado vai.
A partir de 18 de fevereiro de 2027, as baterias de veículos elétricos colocadas no mercado da UE terão de trazer um passaporte digital acessível por código QR, com origem, composição, pegada de carbono e histórico de utilização. A responsabilidade pela exatidão dos dados é do fabricante.
Duas ressalvas travam o entusiasmo. Não é retroativo: os carros que já circulam hoje — precisamente os que vai encontrar no mercado de usados nos próximos anos — não recebem passaporte nenhum. E nada garante que o passaporte não se limite a repetir o SOH calculado pelo BMS, sem recálculo independente nem método padronizado entre marcas. Melhora a rastreabilidade; não garante comparabilidade.
Até lá, não existe qualquer obrigação europeia de o vendedor entregar um certificado de saúde da bateria com um elétrico usado. O que nos leva ao ponto prático.
Um dado curioso do inquérito informal feito a sete profissionais de usados elétricos — com Mégane E-Tech, Model 3, Model S, Taycan, iX1, Dacia Spring e e-Soul em stock: quase todos tiram o SOH diretamente do BMS, confiam plenamente no valor, e a maioria não o publica nos anúncios, mesmo tendo-o.
Ou seja, o dado existe. Basta pedir. E ao pedir, peça a versão completa:
Se o vendedor não tiver respostas, um AVILOO PREMIUM por 99 € num carro de 25.000 € é um seguro barato. E se o SOH vier abaixo do esperado, esse número passa a ser argumento na negociação — no Reino Unido, elétricos usados com certificado de bateria vendem-se mais depressa e por 450 a 900 libras acima dos equivalentes sem certificado.
O SOH não é uma mentira. É um indicador útil apresentado sem manual de instruções. Trate-o como trata a quilometragem de um usado a gasóleo: um número que diz muito, desde que saiba quem o mediu e o que ele deixa de fora.
Depende da idade e dos quilómetros. Num elétrico com 3 a 6 anos, 85 a 95% é o intervalo normal, por isso 88% é aceitável — mas o mesmo valor num carro de dois anos com 35.000 km é mau sinal. Peça também o equilíbrio de tensão entre células: uma bateria com 88% a envelhecer de forma homogénea é melhor negócio do que uma com 92% e células desequilibradas. Abaixo de 80% considere bandeira vermelha e verifique a garantia antes de avançar.
Um teste independente completo, do tipo AVILOO PREMIUM, custa cerca de 99 € — recebe uma caixa OBD-II em casa, carrega o carro a 100% e descarrega até aos 10% no prazo de uma semana, recebendo depois um certificado PDF. O teste rápido feito no stand, tipo AVILOO FLASH, custa 35 € por unidade e demora três minutos com o carro parado. A opção mais barata é comprar um adaptador OBD-II Bluetooth por 30 a 60 € e usar a app do modelo, como Leaf Spy, Scan My Tesla ou Car Scanner.
Estraga menos do que se diz, mas conta. Segundo a análise da Geotab a 22.700 elétricos, quem usa carregamento DC acima de 100 kW com frequência perde 3,0% de capacidade por ano — cerca de 76% de SOH aos 8 anos — contra 1,5% ao ano, ou cerca de 88% aos 8 anos, em quem usa pouco a corrente contínua. A média geral do parque é de 2,3% ao ano. Num usado, pergunte que fatia dos quilómetros foi feita em carregadores rápidos.
Sim. O mesmo estudo da Geotab mostra que climas em que mais de 35% dos dias ultrapassam os 25 °C acrescentam cerca de 0,4 pontos percentuais de degradação por ano — uma penalização que se aplica a boa parte do território português, sobretudo no Sul e no interior. Na prática, um elétrico que passou anos estacionado na rua com 100% de carga em Beja não envelheceu como um que dormia numa garagem no Porto. Vale a pena perguntar ao vendedor onde o carro era estacionado e carregado.
Normalmente sim, mas só abaixo de um limite mínimo de capacidade definido pelo fabricante, e não por cada ponto perdido. As garantias de bateria típicas cobrem 8 anos ou 160.000 km, o que ocorrer primeiro, pelo que num usado é essencial confirmar quanto tempo e quilometragem restam e se a cobertura se transfere para o segundo dono. Note que não existe qualquer obrigação europeia de o vendedor entregar um certificado de saúde da bateria — e o passaporte digital que chega a 18 de fevereiro de 2027 não é retroativo aos carros já em circulação.