
Durante décadas, a regra ao comprar um carro usado foi simples: quantos quilómetros tem? Nos elétricos, essa regra deixou de funcionar. Um estudo alemão recente analisou cerca de 50.000 baterias e mostrou que a degradação é muito mais lenta do que se pensava — e que o conta-quilómetros perdeu grande parte do poder que tinha na hora de negociar. O que pesa agora é a saúde da bateria do carro elétrico usado, não os quilómetros que aparecem no painel.
Para quem está a ponderar dar o salto para um elétrico em segunda mão em Portugal, esta mudança vale dinheiro. Pode estar a pagar a mais por um carro com poucos quilómetros — ou a desperdiçar uma excelente compra só porque o número no conta-quilómetros assusta.
O trabalho conjunto da TÜV Nord e da Carly, publicado em março de 2026, mediu o State of Health (SoH) de cerca de 50.000 baterias de elétricos e híbridos plug-in. O SoH é uma escala de 0 a 100 que indica quanta capacidade a bateria mantém face ao estado de fábrica.
O resultado central: a mediana ficou em 96 pontos. Por outras palavras, metade dos carros analisados mantinha 96% ou mais da capacidade original. Apenas 9,9% desceram abaixo dos 85 pontos. As baterias, na prática, aguentam-se muito melhor do que o medo coletivo sugere.
Aqui está o dado que muda a forma de comprar. A degradação não é linear — tem um ponto de viragem claro nos 90.000 km:
Isto explica porque é que a quilometragem do carro elétrico usado deixou de ser um bom indicador de preço: a esmagadora maioria dos elétricos no mercado de ocasião ainda está abaixo desse limiar e, portanto, mal sentiu o desgaste. Entre um elétrico com 30.000 km e outro com 70.000 km, a diferença real de saúde da bateria pode ser de apenas dois a três pontos de SoH. Não justifica os milhares de euros de diferença que muitas vezes separam os dois anúncios.
A marca também conta — mas menos do que se imagina nos carros recentes. No estudo, os modelos atuais de quase todas as marcas concentram-se entre 97 e 100 pontos de SoH. A variação aparece nos carros mais antigos: Hyundai, Kia e Mercedes-Benz mantêm-se nos 90–95+, enquanto Volkswagen, Renault e Citroën de gerações anteriores caem para os 70–80. Uma diferença que pode chegar aos 10 pontos.
Um segundo estudo, este britânico e independente, confirma a ideia por outro caminho. O Battery Performance Index 2025 da Generational analisou mais de 8.000 elétricos de 36 marcas e encontrou um SoH médio de 95,15%. O detalhe mais revelador: carros com mais de 160.000 km (100.000 milhas) muitas vezes ainda apresentavam 88% a 95% de saúde. Frotas com muitos quilómetros, mas bem carregadas, chegavam a bater carros mais velhos com poucos quilómetros.
A lição é direta: a quilometragem isolada não diz quase nada sobre o estado da bateria. Um elétrico de três anos com 90.000 km bem tratados pode ter a bateria em melhor estado do que um de seis anos com 30.000 km mal carregados.

Se os quilómetros já não são o número que importa, o que é que importa? Quatro pontos, por ordem de relevância.
1. Saúde da bateria (SoH). É o novo conta-quilómetros. Peça um certificado ou relatório de SoH. Em Portugal, a Dekra já realiza testes de bateria independentes. Um carro com SoH documentado acima dos 90% é um forte candidato, mesmo com quilometragem alta.
2. Histórico de carregamento. É aqui que se esconde o desgaste invisível. Carros carregados sobretudo em casa, em wallbox AC, e mantidos entre os 20% e os 80%, envelhecem com suavidade. O carregamento rápido DC frequente, somado a cargas a 100% em calor, acelera a degradação. Pergunte sempre: como é que este carro era carregado?
3. Garantia da bateria. A maioria dos fabricantes garante pelo menos 70% de capacidade durante 8 anos ou cerca de 160.000 km. Confirme quanto resta dessa garantia e — ponto crítico em segunda mão — se ela é transferível para o novo dono.
4. Autonomia real. A autonomia WLTP é um número de catálogo. O que interessa é a autonomia real que o carro entrega hoje, com a bateria no estado atual. Confirme que chega para o seu uso diário com margem.
A isto juntam-se os básicos de qualquer usado: estado dos pneus (os elétricos gastam-nos mais depressa por causa do binário instantâneo), travões, e o estado de software e recalls pendentes.
Existe uma zona doce. Os dados apontam para a faixa dos 65.000 aos 130.000 km (40.000 a 80.000 milhas) como o melhor equilíbrio: já passou a depreciação mais agressiva dos primeiros anos, mas ainda está confortavelmente abaixo do ponto de viragem dos 90.000 km de desgaste acelerado — e dentro da janela de garantia da bateria.
Esta tabela, adaptada de um guia de avaliação de elétricos usados, ajuda a ler os anúncios (valores convertidos para quilómetros):
| Quilómetros | Como o mercado lê | Impacto típico no preço | A verificar |
|---|---|---|---|
| 0–32.000 km | Quase novo | Preço de referência | Início da garantia, recalls |
| 32.000–65.000 km | Pouco usado | -5% a -10% | Bateria praticamente nova |
| 65.000–113.000 km | Uso médio | -10% a -20% | Zona de valor; foco no SoH |
| 113.000–160.000 km | Alta, mas razoável | -20% a -30% | Alguma perda de autonomia |
| 160.000–240.000 km | Quilometragem alta | -30% a -45% | Exige teste de bateria forte |
| Acima de 240.000 km | Muito alta | Caso a caso | Só se preço, SoH e uso baterem certo |
A regra de ouro: pense em quilómetros de autonomia útil, não em quilómetros percorridos. Um elétrico com 95.000 km a 92% de SoH pode valer mais do que um com 55.000 km já em 82%.
Importa muito menos do que num carro a combustão. O estudo da TÜV Nord e Carly (2026, cerca de 50.000 baterias) mostrou que até aos 90.000 km a bateria perde apenas cerca de 0,7 pontos de SoH a cada 10.000 km. Entre um elétrico com 30.000 km e outro com 70.000 km, a diferença real de saúde da bateria costuma ser de apenas dois a três pontos. O que pesa hoje é a saúde da bateria (SoH), não o conta-quilómetros.
Os dados apontam para a faixa dos 65.000 aos 130.000 km como o melhor equilíbrio: a depreciação mais agressiva dos primeiros anos já passou, o carro continua confortavelmente abaixo do ponto de viragem dos 90.000 km de desgaste acelerado e ainda está dentro da janela de garantia da bateria. Mais importante do que os quilómetros é o estado da bateria documentado.
Peça um certificado ou relatório de State of Health (SoH), uma escala de 0 a 100 que indica quanta capacidade a bateria mantém face ao estado de fábrica. Em Portugal, a Dekra realiza testes de bateria independentes em cerca de 15 minutos. Um SoH documentado acima dos 90% é sinal de uma bateria saudável, mesmo num carro com quilometragem alta.
A maioria dos fabricantes garante pelo menos 70% de capacidade durante 8 anos ou cerca de 160.000 km. Na compra de um usado, confirme quanto resta dessa garantia e — ponto crítico — se ela é transferível para o novo proprietário, já que isso protege diretamente o seu investimento.
Pode valer muito a pena. O estudo britânico Battery Performance Index 2025 (mais de 8.000 elétricos, 36 marcas) registou um SoH médio de 95,15%, com carros acima dos 160.000 km a manterem frequentemente 88% a 95% de saúde. Como o motor elétrico tem pouquíssimas peças móveis, um elétrico bem cuidado e bem carregado com 130.000 km pode ser uma compra inteligente. Pense em quilómetros de autonomia útil, não em quilómetros percorridos.
Num carro a combustão, muitos quilómetros significam motor e caixa desgastados — peças caras, com risco de avaria a partir dos 100.000 a 120.000 km. O elétrico não tem essa preocupação. Tem pouquíssimas peças móveis e o motor elétrico aguenta centenas de milhares de quilómetros sem queixas.
Por isso é que um elétrico bem cuidado com 130.000 km pode ser uma compra inteligente, enquanto o equivalente a gasolina já estaria penalizado. A pergunta deixou de ser "quantos quilómetros tem o motor?" para passar a ser "em que estado está a bateria?".
O mercado português ainda está a ajustar-se a esta nova realidade — e essa é precisamente a oportunidade. Quem souber olhar para o SoH em vez do conta-quilómetros vai encontrar elétricos usados que os outros compradores, ainda presos à mentalidade dos carros a gasolina, estão a desvalorizar sem razão. Vale a pena pedir o relatório da bateria antes de pedir o preço.