
Três motores axiais, 1.341 cavalos e zero combustão. E mesmo assim, ao carregar no pedal em modo Sport+, o novo Mercedes-AMG GT elétrico ruge como um V8 — com simulação de mudanças de caixa, paddles que cortam o "andamento" e até um redline que se atinge antes da próxima "mudança". A AMG decidiu que o desempenho elétrico não tem de ser silencioso. E está a apostar tudo nesta ideia.
O carro será apresentado a 20 de maio em Los Angeles, com estreia oficial no verão de 2026 e produção a arrancar ainda este ano em Marienfelde, Berlim. É o primeiro modelo de série na nova plataforma AMG.EA, e está claro que a Mercedes quer redefinir o que significa um GT desportivo na era da bateria.
O Mercedes-AMG GT XX (nome do conceito que dá origem ao modelo de produção) assenta numa arquitetura completamente nova, criada de raiz para desempenho elétrico. Não é uma adaptação de um EQS. É uma plataforma própria com base inferior a 800V.
A grande novidade técnica está nos motores. A AMG usa três unidades de fluxo axial fabricadas pela YASA — uma subsidiária 100% Mercedes desde 2021. Dois motores estão no eixo traseiro; um terceiro, no eixo dianteiro, funciona como booster com unidade de desacoplamento. Quando não é necessário, simplesmente desliga, reduzindo perdas.
O motor axial-flux YASA tem três vezes mais densidade de potência que um motor radial convencional, é cerca de dois terços mais leve e ocupa um terço do espaço. O conjunto traseiro principal mede apenas 9 cm de largura. É o tipo de avanço técnico que normalmente fica reservado para hipercarros — e que agora chega a um modelo de série.
| Especificação | Valor |
|---|---|
| Plataforma | AMG.EA (arquitetura superior a 800V) |
| Motores | 3 unidades YASA de fluxo axial (2 traseiros + 1 dianteiro) |
| Potência (conceito) | 1.000 kW / 1.341 cv / 1.360 PS |
| Potência estimada produção | cerca de 1.100 bhp |
| Binário estimado | 1.220 Nm |
| 0-100 km/h | 2,2 s (estimado) |
| Velocidade máxima | mais de 360 km/h (conceito) / cerca de 305 km/h (produção) |
| Bateria | 114 kWh (conceito) / cerca de 100 kWh (produção) |
| Química | células cilíndricas NMCA com arrefecimento direto |
| Carregamento DC | 900 kW (conceito) / mais de 500 kW (produção) |
| Autonomia WLTP | cerca de 400 km |
| Comprimento | 5.200 mm |
| Peso estimado | 2.200 kg |
| Cd aerodinâmico | 0,198 |
| Preço UK estimado | 200.000 libras |
Esta é a parte que vai dividir opiniões. Em modo Confort, o GT é praticamente silencioso. Mas ao mudar para Sport+, a Mercedes liga uma banda sonora sintetizada que imita um V8 AMG — incluindo simulações de mudanças de caixa.
O carro tem uma única velocidade. Mecanicamente, não muda mudanças. Mas o sistema simula uma caixa sequencial: à medida que acelera, o "motor" sobe rotações até bater num corte (redline) com um "barrp" característico, e só depois a aceleração continua, como se tivesse engatado a mudança seguinte. Pode controlar as "mudanças" manualmente com paddles atrás do volante.
A imersão vai mais longe. O banco do condutor vibra em sincronia com o conta-rotações central, dando uma sensação háptica de motor a trabalhar. Os críticos da Carscoops, que conduziram protótipos, consideram que o sistema é tecnicamente superior ao do Dodge Charger Daytona elétrico — o outro grande experimento de som sintético no mercado.
A pergunta legítima: faz sentido? Para um entusiasta que cresceu com V8 AMG, talvez torne a transição mais palatável. Para um comprador EV puro, é provavelmente uma curiosidade que se desliga ao fim de uma semana. A AMG aposta que, num GT desportivo, o teatro acústico continua a fazer parte da experiência.
Aqui está o tendão de Aquiles. A autonomia WLTP estimada ronda os 400 km — modesta para um carro de 100 kWh. A bateria está claramente otimizada para descarga máxima em pista, não para eficiência em estrada.
O carregamento compensa parte do problema. A 900 kW (no conceito), o GT XX recupera cerca de 400 km em 5 minutos. Mesmo a versão de produção, com cerca de 500 kW, fica entre os carros mais rápidos a carregar no mercado. O problema: nenhuma estação pública em Portugal entrega 500 kW hoje. As mais rápidas da MOBI.E e da Ionity ficam-se pelos 350 kW. O potencial do carro só será aproveitado em meia dúzia de hubs europeus específicos.
Em agosto de 2025, um protótipo bateu o recorde mundial de distância em 24 horas: 5.480 km a uma média de 228,3 km/h. Mais do que o recorde absoluto de Le Mans. Mostra que a bateria suporta uso sustentado de alta potência — o oposto da maioria dos elétricos desportivos, que reduzem potência depois de duas voltas em pista.
A AMG não está só a entregar números brutos. O chassis é provavelmente o trabalho mais sério.
Este último ponto é típico AMG: mesmo num carro de mais de 2.200 kg, há um modo que desativa o eixo dianteiro e transforma o GT num carro de tração traseira. A sério.
A Autocar estima o preço britânico em 200.000 libras (cerca de 235.000 euros). Em Portugal, sendo um elétrico, beneficia da isenção de ISV — o que normalmente representa uma poupança de 15 a 25 mil euros em modelos premium. O IUC para elétricos também é mínimo.
Mesmo assim, falamos de um carro que deverá custar entre 240.000 e 280.000 euros em Portugal. Concorre diretamente com o Porsche Taycan Turbo GT (1.034 cv), o Lotus Emeya 900 e o Polestar 5 Performance. Para referência, o Xiaomi SU7 Ultra entrega 1.526 cv por uma fração do preço — mas não está disponível na Europa.
Em modo Sport+, o GT elétrico ativa uma banda sonora sintetizada que imita um V8 AMG, sincronizada com vibrações no banco do condutor e um conta-rotações central. Embora o carro tenha uma única velocidade (single-speed), o sistema simula mudanças de caixa sequenciais: as rotações sobem até um corte (redline) com um 'barrp' característico antes de a aceleração continuar, como se tivesse engatado a mudança seguinte. O condutor pode controlar essas 'mudanças' manualmente através de paddles atrás do volante.
A apresentação oficial está marcada para 20 de maio de 2026 em Los Angeles, com estreia europeia no verão de 2026 e produção a arrancar ainda este ano em Marienfelde, Berlim. As primeiras unidades em Portugal devem chegar via concessionários Mercedes-Benz a partir do final de 2026 ou início de 2027, com volumes inicialmente muito limitados dado o posicionamento topo de gama.
A autonomia WLTP estimada ronda os 400 km com a bateria de 114 kWh (cerca de 100 kWh na versão de produção) — modesta para a capacidade, porque a bateria está otimizada para descarga máxima em pista. O carregamento DC chega a 900 kW no conceito (cerca de 500 kW na produção), o que permite recuperar 400 km em apenas 5 minutos. Em Portugal, no entanto, as estações mais rápidas da MOBI.E e da Ionity ficam-se pelos 350 kW, pelo que o potencial só será totalmente aproveitado em hubs europeus específicos.
No Reino Unido, o preço estimado ronda as 200.000 libras (cerca de 235.000 euros antes de taxas). Em Portugal, com IVA a 23% e a isenção parcial de ISV para elétricos, o preço final deverá situar-se entre 230.000 e 270.000 euros consoante o equipamento. O IUC para elétricos puros mantém-se reduzido, mas a este nível de preço o impacto fiscal positivo dos incentivos é marginal face ao valor total.
O AMG GT XX produz 1.341 cv (conceito) ou cerca de 1.100 bhp (produção estimada), contra os 1.034 cv do Porsche Taycan Turbo GT, com um 0-100 km/h estimado em 2,2 segundos. Tecnicamente, o AMG aposta em três motores axial-flux YASA e arquitetura superior a 800V, enquanto o Porsche usa motores radiais e arquitetura 800V tradicional. O AMG diferencia-se ainda pelo som V8 sintético e shifts simulados, enquanto o Taycan mantém um perfil acústico mais discreto, focado na pureza elétrica.
A produção arranca em 2026 em Marienfelde. As primeiras entregas europeias devem acontecer no final do verão ou outono de 2026. A rede Mercedes-Benz em Portugal — Sucena, Caetano Auto, Santogal — deverá receber o modelo logo na primeira leva, embora em volumes pequenos. Configurações personalizadas, como é habitual em AMG topo de gama, podem estender o prazo de entrega para 2027.
Vale a pena acompanhar a apresentação de 20 de maio em LA. É aí que a Mercedes deverá revelar a designação final de produção, o preço base oficial e os primeiros mercados de lançamento. Os 1.341 cavalos já estão garantidos. O som V8 sintético também. O que falta saber é se a Mercedes consegue convencer quem comprou AMG durante 20 anos de que esta é a evolução natural — ou apenas a versão eletrificada de algo que já não existe.