
Um Renault Zoé que custou 32.445 € em 2020 vale hoje 11.477 € no mercado de usados. É uma perda de 65% em cinco anos — e não é sequer um caso isolado. A análise do Leboncoin aos dez elétricos mais vendidos em França, publicada pela Automobile-Propre, aponta para uma desvalorização média de 59% ao fim de cinco anos.
Os dados são franceses, mas os modelos são exactamente os mesmos que circulam nos stands portugueses: Zoé, e-208, e-2008, ID.3, Model 3, Spring. E a lógica que empurra os preços para baixo — cortes nos preços do novo, avanços tecnológicos rápidos, retomas de leasing em catadupa — não conhece fronteiras. Se está a avaliar quais são os carros elétricos usados que mais desvalorizam, este ranking é o melhor ponto de partida disponível.
A leitura óbvia é má notícia para quem comprou em 2020. A menos óbvia é que quem compra agora está a apanhar a conta de outra pessoa.
| Modelo | Desvalorização | Preço novo (2020) | Preço usado (2025) |
|---|---|---|---|
| Renault Zoé | 65% | 32.445 € | 11.477 € |
| Peugeot e-2008 | 62% | 40.690 € | 15.464 € |
| Renault Twingo E-Tech | 62% | 24.423 € | 9.392 € |
| Peugeot e-208 | 60% | 35.096 € | 13.873 € |
| Kia e-Niro | 58% | 44.625 € | 18.722 € |
| Mini Cooper Electric | 57% | 39.066 € | 16.617 € |
| Volkswagen ID.3 | 57% | 41.963 € | 17.871 € |
| Fiat 500e | 56% | 31.487 € | 13.993 € |
| Tesla Model 3 | 56% | 52.136 € | 23.180 € |
| Dacia Spring | 53% | 17.695 € | 8.347 € |
Fonte: análise Leboncoin ao mercado francês, 2020 → 2025.
Repare no fundo da tabela. O Dacia Spring é o que menos perde em percentagem (53%), mas é também o que menos tinha a perder: saiu de 17.695 € e está agora nos 8.347 €. Já o Tesla Model 3 perde 56% — só que 56% de 52.136 € são quase 29.000 € de valor evaporado. Percentagem e euros contam histórias diferentes, e é a coluna dos euros que dói na carteira.
Dois modelos já caíram abaixo da barreira psicológica dos 10.000 €: o Twingo E-Tech, a 9.392 €, e o Spring, a 8.347 €. São preços de citadino a gasóleo com dez anos — só que sem correia de distribuição, sem embraiagem e sem filtro de partículas.

Uma segunda análise dos mesmos dados do Leboncoin, feita pelo Le Parisien, alarga o retrato a modelos fora deste top-10 e encontra quedas ainda maiores: Nissan Leaf com 67% e Audi e-tron com 65%. As percentagens desta segunda leitura diferem ligeiramente das da tabela acima (o ID.3 aparece com 58%, o Model 3 com 59%), porque a amostra e o período não são idênticos — por isso vale a pena tratá-las em separado, e não misturar as duas listas.
Aqui é preciso ser honesto, porque quase ninguém o é: estas percentagens comparam o preço de usado com o preço de tabela do carro novo. Ignoram os incentivos à compra e os descontos de stand que existiam em 2020.
Em França, o bónus ecológico chegava a 7.000 € nos veículos abaixo de 45.000 €. Em Portugal, o Fundo Ambiental também apoiava a compra de elétricos novos por particulares, e a isenção total de ISV já era, por si só, uma vantagem de vários milhares de euros face a um equivalente a combustão.
Ou seja: o proprietário que comprou um e-208 em 2020 não pagou os 35.096 € da tabela. Pagou menos — possivelmente bastante menos. A perda real dele é menor do que os 60% do título. O que não muda é o preço a que o carro está hoje à venda, e é esse que interessa a quem compra em segunda mão.
Não é um mistério, e não é (só) medo da bateria. São quatro forças a empurrar na mesma direcção:
O resultado vê-se no tempo de venda. Em Novembro de 2025, um elétrico demorava em média 84 dias a encontrar comprador em França, contra 60 dias de um gasolina (dados Indicata). Desde 2020, os preços dos elétricos usados caíram 22%, enquanto os dos gasolina subiram 6%.
A comparação "elétrico desvaloriza mais que térmico" é verdadeira, mas está longe de ser o abismo que se lê por aí. Aos três anos, os elétricos perdem tipicamente 38% a 42% do valor; os gasolina equivalentes, 35% a 40%. São três a cinco pontos percentuais de diferença — e o intervalo tem vindo a estreitar.
E dentro dos térmicos a dispersão é brutal nos dois sentidos. Um Dacia Sandero a gasolina perde 14% em cinco anos. Um Nissan Micra a gasóleo perde 64% — pior do que oito dos dez elétricos da tabela acima. A questão nunca foi "elétrico ou combustão". É o modelo certo, com procura real, ao preço certo.
Se há um número que vale a pena aprender antes de comprar um elétrico usado, é o SoH (state of health) — a capacidade que a bateria ainda tem face à de fábrica.
A relação com o preço é directa e já está mapeada: cada 1% de SoH perdido corta cerca de 1,2% a 1,6% no valor de revenda num elétrico generalista, e até 2,0% num premium de grande autonomia. Pior: a relação não é linear. Abaixo dos 85% de SoH, os preços caem mais depressa.
Na prática:
Como saber o estado da bateria de um carro elétrico usado antes de comprar? Um teste rápido pela porta OBD demora cerca de 15 minutos. Empresas de avaliação como a alemã DAT já integram o SoH medido no valor comercial do carro: comparam a saúde real com a esperada para aquela idade e quilometragem, e traduzem a diferença directamente em euros. Existem também certificados independentes de bateria (AVILOO, DEKRA) que fazem o mesmo para um comprador particular.
Nunca aceite o estimador de autonomia do quadrante como prova. Ele mostra o consumo recente, não a saúde da célula.
A janela boa é a dos 3 a 5 anos. A desvalorização mais violenta — a do primeiro dono — já aconteceu, e a bateria está tipicamente ainda dentro da garantia. É exactamente onde estão os carros da tabela acima.
Vale a pena olhar com atenção para os modelos que desvalorizaram por causa de incentivos, descontos e mudanças fiscais, e não porque os donos os detestaram. Um ID.3, um Kona Electric de 64 kWh ou um Model 3 caíram de preço por dinâmica de mercado, não por defeito de carácter. O Polestar 2 com três anos negoceia por menos de metade do preço original.
E há modelos onde a pechincha é uma armadilha:
O princípio é simples: um carro com péssima desvalorização não é automaticamente má compra. É má compra quando não sabe o estado da bateria, quando não confirmou o histórico de campanhas e recalls, ou quando a autonomia real não chega para o uso que lhe vai dar.
Dentro dos dez modelos analisados pelo Leboncoin, o Dacia Spring é o que menos perde em percentagem (53% em cinco anos), seguido do Fiat 500e e do Tesla Model 3, ambos com 56%. Mas a percentagem engana: 53% de um Spring são cerca de 9.300 €, enquanto 56% de um Model 3 são quase 29.000 € de valor perdido. Nos segmentos superiores, os Tesla Model S e Model X são a excepção, retendo 47% a 52% do valor aos quatro ou cinco anos, segundo dados norte-americanos da iSeeCars.
O Zoé é o campeão da desvalorização desta lista: custava 32.445 € novo em 2020 e negoceia agora à volta de 11.477 €, uma queda de 65% em cinco anos. Uma segunda leitura dos mesmos dados, feita pelo Le Parisien, aponta valores muito próximos (30.852 € para 11.293 €, menos 19.559 €). Em Portugal os preços variam com a versão de bateria — as primeiras de 22 kWh valem bem menos do que as de 52 kWh — e com o estado de saúde da célula, pelo que dois Zoé do mesmo ano podem estar separados por vários milhares de euros.
A garantia típica dos fabricantes cobre 8 anos ou 160.000 km e assegura um mínimo de 70% de capacidade (SoH) nesse prazo. Um carro matriculado em 2020 está, portanto, quase sempre ainda dentro da janela de cobertura, com dois a três anos de garantia por usar — desde que o limite de quilómetros não tenha sido ultrapassado. Peça o comprovativo de transferência da garantia para o novo proprietário e confirme os quilómetros exactos antes de fechar negócio.
O Leaf desvaloriza ainda mais do que o Zoé (67% contra 65%, segundo os dados do Leboncoin), mas o critério decisivo é técnico e não financeiro. As primeiras gerações do Leaf, com 24 kWh e refrigeração da bateria por ar, degradam mal em climas quentes como o português e dependem da tomada CHAdeMO, cada vez mais rara nas redes de carregamento rápido. No Zoé o risco é contratual: muitos exemplares foram vendidos com a bateria em regime de aluguer mensal, pelo que é essencial confirmar se a bateria está incluída na venda ou se herda uma mensalidade.
Os automóveis 100% elétricos estão isentos de Imposto Sobre Veículos (ISV) e beneficiam de isenção de IUC, o que se aplica também aos usados e aos importados de outros países da União Europeia. É uma poupança anual recorrente que um usado a combustão equivalente nunca tem, e que ajuda a compensar o risco associado à bateria. Muitos municípios acrescentam ainda estacionamento gratuito ou tarifas reduzidas para veículos elétricos.
Do lado fiscal, a matemática ajuda: os elétricos puros continuam isentos de ISV e de IUC, o que retira ao orçamento anual duas rubricas que um usado a combustão traz sempre agarradas. Num Zoé ou num e-208 de 2020, isso pesa mais do que parece face ao custo total.
Depois há o uso. Um citadino de 2020 com 250 a 300 km reais chega folgadamente para a rotina de casa-trabalho na Grande Lisboa ou no Porto, sobretudo com carregamento em casa. Para o Lisboa-Algarve de Agosto, a conversa é outra — aí quer autonomia maior e carregamento DC decente, e é aí que um Kona de 64 kWh ou um Model 3 justificam a diferença de preço.
Antes de fechar negócio, peça o relatório de SoH, confirme a garantia de bateria que ainda resta e compare o preço pedido com o que modelos equivalentes estão a pedir hoje. Os elétricos de 2020 que chegam agora ao mercado português já pagaram a factura da desvalorização — a única coisa que falta verificar é se a bateria acompanhou.