
Um elétrico chinês com três anos vale hoje, em média, apenas 38% do preço a que saiu do stand. É o número que a DAT, a autoridade alemã de avaliação automóvel, acaba de colocar em cima da mesa — e que torna a desvalorização dos carros elétricos chineses cerca de duas vezes mais rápida do que a média do mercado.
Para quem está a ponderar comprar um BYD, um MG ou outro elétrico chinês em Portugal, este dado muda a conta toda. O preço de catálogo é atrativo, sim. Mas o que conta no fim é quanto recupera quando o vender — e aí a história é menos simpática do que o folheto comercial sugere.
A DAT, citada pelo seu responsável de avaliações Martin Weiss, é clara: as marcas chinesas (elétricos e híbridos plug-in) perdem valor ao dobro do ritmo da média do setor, e a queda está a acelerar. Para perceber a dimensão, vale a pena olhar para a retenção de valor aos três anos por tipo de carro.
| Tipo de carro (3 anos) | Reino Unido | Alemanha / França / Espanha |
|---|---|---|
| Elétrico | 38% | 46% |
| Gasolina | 45% | — |
| Híbrido | 51% | — |
Repare num pormenor: mesmo os elétricos em geral ficam atrás da gasolina e dos híbridos na retenção de valor. Os chineses são apenas o pior caso dentro de uma categoria que já desvaloriza depressa. No mercado alemão, a DAT estima que um elétrico perca cerca de 51% do valor em três anos, contra os 38% de um carro de combustão.
Não é uma só razão. São três que se reforçam.
Crise de confiança. Weiss resumiu-a bem: "não basta lançar um bom produto". O comprador de usados quer saber se a marca ainda cá estará daqui a cinco anos, se há peças, se há rede de assistência. Com marcas chinesas recém-chegadas, essa certeza não existe — e a dúvida desconta-se no preço.
Descontos agressivos no novo. Quando uma marca corta o preço de catálogo de um dia para o outro, o seu carro de três anos passa a parecer caro de repente. Foi o que a Tesla fez repetidamente, e as marcas chinesas seguem a mesma lógica de preço agressivo. Cada corte no novo arrasta o usado para baixo.
Ciclos de tecnologia rápidos. Os elétricos renovam-se depressa — mais autonomia, carregamento mais rápido, software novo. Um modelo com um ano já parece ultrapassado, e isso pesa na revenda muito mais do que num carro a combustão.

Há um fator que poucos compradores conhecem: muitas marcas chinesas escoam volume através de canais de frota e rent-a-car de curta duração. O BYD Seal U DM-i, híbrido plug-in, é um dos exemplos mais populares na Alemanha. O problema vem depois: quando esses carros regressam ao mercado de usados quase todos ao mesmo tempo, inundam a oferta e empurram os preços para baixo.
A pressão sente-se também no renting. Bart Beckers, vice-CEO da Arval, admitiu que a empresa "já foi obrigada a subir preços" porque os carros devolvidos valem bem menos do que o previsto. Tradução para o cliente: mensalidades mais altas, o que corrói exatamente o argumento de valor com que muitos elétricos chineses são vendidos.
Não é só um problema chinês. Os valores residuais dos elétricos na Europa atingiram o pico em outubro de 2022 e não pararam de cair desde então. Segundo a Autovista, os usados elétricos valem hoje cerca de 24% menos do que antes da pandemia na Alemanha e perto de 30% menos no Reino Unido.
As marcas chinesas representam ainda menos de 1% dos anúncios de usados na Alemanha, mas o volume quase triplicou desde 2022 enquanto a procura se mantém fraca. Mais oferta, pouca procura — a receita perfeita para preços em queda.
Nem tudo é mau, e há diferenças importantes entre modelos. Quem compra de olhos abertos pode minimizar o estrago.
Importa um aviso: vários destes números de marca vêm de mercados fora da Europa, por isso valem como orientação de tendência, não como tabela exata para Portugal. A direção, porém, é consistente em todas as fontes.
Em média, um elétrico chinês com três anos vale apenas cerca de 38% do preço a que saiu do stand, segundo a DAT, a autoridade alemã de avaliação automóvel. Isso representa uma desvalorização cerca de duas vezes mais rápida do que a média do mercado, e a tendência tem vindo a acelerar. Para comparação, um carro a gasolina retém cerca de 45% do valor ao fim de três anos.
Entre as marcas chinesas, a BYD é a que melhor segura o valor: modelos como o Seal, o Dolphin e o Atto 3 ficam acima da média da categoria. No lado oposto, a MG perde em média cerca de 50% do valor nos primeiros três anos, com o MG5 a perder perto de 20% logo no primeiro ano. Note-se que algumas destas referências de marca vêm de mercados fora da Europa, pelo que valem como orientação de tendência e não como tabela exata para Portugal.
Pode valer muito a pena, precisamente porque a desvalorização brutal dos primeiros três anos já foi absorvida pelo primeiro dono. Ao comprar usado, exija o relatório de saúde da bateria, confirme a garantia (normalmente 8 anos ou 150.000 km, muitas vezes transferível para o segundo dono) e evite modelos que estejam muito descontados em novo, pois o usado sofre a mesma erosão de preço.
Há três fatores que se reforçam: a crise de confiança em marcas recém-chegadas (dúvidas sobre peças, assistência e longevidade da marca), os descontos agressivos no preço de catálogo dos modelos novos, que arrastam o usado para baixo, e os ciclos rápidos de tecnologia, que tornam um modelo com um ano já desatualizado. O escoamento de volume através de frotas e rent-a-car também inunda periodicamente o mercado de usados.
Para quem dá prioridade ao valor, o usado é geralmente a melhor opção, já que a maior parte da desvalorização ocorre nos primeiros três anos. Quem compra novo deve contar com uma desvalorização forte e escolher um modelo com procura comprovada, boa autonomia WLTP e rede de assistência estabelecida — é o que separa um elétrico chinês que mantém algum valor de outro que se afunda na revenda.
Aqui está a outra face da moeda. Se um elétrico chinês perde valor depressa, então comprá-lo usado é precisamente onde está a oportunidade. Quem absorveu a desvalorização brutal dos primeiros três anos foi o primeiro dono — não você.
Ao procurar um elétrico chinês usado em Portugal, vale a pena fazer três coisas:
Para quem compra novo, a regra inverte-se: conte com uma desvalorização forte e escolha um modelo com procura comprovada, boa autonomia WLTP e rede de assistência estabelecida. É o que separa um elétrico chinês que mantém algum valor de outro que se afunda.
A desvalorização rápida não é, por si só, motivo para fugir das marcas chinesas. É motivo para comprar do lado certo da curva — usado, com a bateria verificada — e para ler o preço de catálogo com o ceticismo que ele merece.