
Há um ano, a escolha era fácil. Nas comparações feitas com o Spring de primeira geração, o Leapmotor T03 ganhava quase tudo: andava mais, ia mais longe e tratava melhor os passageiros de trás. A segunda geração do Spring, apresentada em setembro de 2026 e fabricada na Eslovénia, obriga a refazer as contas — e o duelo Dacia Spring vs Leapmotor T03 volta a estar em aberto.
Ambos custam menos de 20.000 € em Portugal, ambos usam bateria LFP e ambos têm lugar para quatro pessoas. As diferenças estão na autonomia real, no carregamento rápido, no espaço e no equipamento. Para quem está a decidir entre o Dacia Spring ou o Leapmotor T03, vale a pena olhar para cada uma com calma.
O novo Spring não é uma atualização. Assenta na plataforma RG-EV do grupo Renault, a mesma do Renault Twingo E-Tech, e sai da fábrica de Novo Mesto, na Eslovénia, em vez da China. É o primeiro de quatro elétricos que a Dacia promete até 2030 e sucede a um modelo que vendeu mais de 210.000 unidades em mais de 40 países desde 2021.
Cresceu em todas as direções. Tem 3,85 m de comprimento e 1,74 m de largura, mais 15 e 18 cm do que o antecessor. O motor passa para 60 kW (80 cv) e a bateria para 27,5 kWh úteis. Tudo o que o antigo Spring fazia mal nas comparações com o T03 — potência, autonomia, carregamento — foi atacado diretamente.
O T03 chega a este duelo sem grandes mudanças. Continua com uma única versão bem equipada, 70 kW (95 cv) e uma bateria de 37,3 kWh brutos (36,0 kWh úteis). A grande novidade é logística: a produção em Tychy, na Polónia, durou apenas de junho de 2024 a março de 2025, e o carro voltou a ser importado da China.
| Novo Dacia Spring (2.ª geração) | Leapmotor T03 | |
|---|---|---|
| Produção | Novo Mesto, Eslovénia | China (Tychy, Polónia, parado desde 03/2025) |
| Potência | 60 kW / 80 cv | 70 kW / 95 cv |
| Binário | 175 Nm | 158 Nm |
| 0-100 km/h | 12,1 s | 12,7 s |
| Velocidade máxima | 130 km/h | 130 km/h |
| Bateria | 27,5 kWh úteis, LFP | 37,3 kWh brutos / 36,0 úteis, LFP |
| Autonomia WLTP | até 250 km | 265 km |
| Consumo WLTP | 12,7 kWh/100 km | 13,6 kWh/100 km (16,3 com perdas de carregamento) |
| Carregamento AC | 6,6 kW (11 kW opcional) | 6,6 kW |
| Carregamento DC | 50 kW opcional; 15-80% em 28 min | 48 kW; 30-80% em 36 min |
| V2L | Sim (com pack opcional) | Não |
| Comprimento / largura / altura | 3.850 / 1.740 / 1.520 mm | 3.620 / 1.577 / 1.652 mm |
| Distância entre eixos | 2.490 mm | 2.400 mm |
| Peso | desde 1.212 kg | 1.250 kg |
| Bagageira | 337 L (1.283 L) + frunk opcional de 18 L | 210 L (880 L) |
| Lugares | 4 | 4 |
| Garantia da bateria | não divulgada | 8 anos / 160.000 km |
Fontes: Quattroruote, Auto361, EV Database, Electrifying, electrive.
Com menos 10 kW, o Spring é ainda assim mais rápido nos 0-100 km/h: 12,1 s contra 12,7 s. Os 175 Nm de binário e o peso ligeiramente inferior explicam a diferença. Nenhum dos dois é para autoestrada rápida — ambos ficam pelos 130 km/h de velocidade máxima.
No papel, a diferença é pequena. O T03 anuncia 265 km WLTP e o Spring até 250 km, apesar de ter menos 8,5 kWh de bateria útil. A razão está na eficiência: 12,7 kWh/100 km é um dos consumos homologados mais baixos do mercado.
Para o T03 já existem números de utilização real. A EV Database estima 260 km em percurso misto com tempo ameno (23 °C) e 190 km no frio (-10 °C, com aquecimento). Em cidade pode chegar aos 345 km no verão; em autoestrada, fica entre 160 e 205 km. Sem bomba de calor, o inverno pesa.
Para o novo Spring ainda não há dados reais — as entregas só começam em dezembro de 2026. Com menos bateria, é de esperar que perca terreno em autoestrada e no frio, onde a eficiência conta menos e os kWh contam mais. Em cidade, o baixo consumo deve manter a diferença curta.
Para contexto: a Dacia diz que o cliente típico do Spring antigo fazia 34 km por dia, a uma média de 34 km/h, e 75% carregava em casa. Para esse perfil, qualquer um dos dois chega para uma semana inteira de deslocações sem ir à tomada.
Com uma tarifa doméstica ilustrativa de 0,20 €/kWh (o valor real depende do seu contrato), as contas ficam assim:
| Consumo | Custo por 100 km | |
|---|---|---|
| Novo Spring (WLTP) | 12,7 kWh/100 km | cerca de 2,54 € |
| T03 (WLTP, só veículo) | 13,6 kWh/100 km | cerca de 2,72 € |
| T03 (WLTP, com perdas de carregamento) | 16,3 kWh/100 km | cerca de 3,26 € |
| T03 (real, frio, misto) | 18,9 kWh/100 km | cerca de 3,78 € |
A diferença entre os dois é de cêntimos por cada 100 km. Nos postos rápidos da rede MOBI.E o preço por kWh sobe bastante, mas isso afeta ambos da mesma forma. Neste duelo, o custo de utilização não é critério de desempate.
Aqui está o detalhe mais importante do Spring. De série, só carrega em corrente alternada a 6,6 kW. O carregamento rápido DC a 50 kW — 15-80% em 28 minutos — faz parte de um pack opcional que também sobe o AC para 11 kW e acrescenta V2L, a função que permite alimentar aparelhos elétricos a partir da bateria. Em França, esse pack custa 500 € e está reservado à versão Journey; o preço português ainda não foi divulgado.
O T03 traz carregamento DC de série, com um pico de 48 kW. Na prática, a electrive aponta 36 minutos de 30% a 80%, e a EV Database mede 53 minutos de 10% a 80%, com uma média de apenas 30 kW. O Spring com pack é, portanto, mais rápido no posto — mas só se o pack estiver lá.
Em casa, o empate é quase total. Ambos carregam a 6,6 kW numa wallbox monofásica. O Spring demora 2h55 dos 15% aos 80% numa wallbox de 7 kW; o T03 precisa de cerca de 6h30 para uma carga praticamente completa, o que numa noite normal chega e sobra.
Esta é a mudança de maior impacto no dia a dia. O Spring antigo já tinha melhor bagageira do que o T03; o novo alarga a vantagem para 337 litros contra 210. São mais 127 litros, a diferença entre levar as compras da semana com folga ou encaixar sacos no banco de trás. Com os bancos rebatidos, são 1.283 L contra 880 L — e o Spring tem banco traseiro 50/50, enquanto o do T03 rebate numa só peça.
O T03 compensa com altura. Tem 1.652 mm contra 1.520 mm do Spring, e os testes britânicos elogiam o espaço atrás: ocupantes com mais de 1,80 m sentam-se sem bater com a cabeça. O novo Spring é 16 cm mais largo do que o T03 e tem mais 9 cm de distância entre eixos, por isso a vantagem do Leapmotor nos lugares de trás deve encolher. Só um teste lado a lado vai dizer quanto.
Na cidade, o T03 continua a ser o mais fácil de arrumar. Tem 3,62 m de comprimento — 23 cm a menos do que o Spring — e um diâmetro de viragem de 9,7 m.

O Leapmotor T03 tem uma única versão e vem carregado: jantes de liga leve de 15", ecrã táctil de 10,1", quadrante digital de 8", climatização, teto panorâmico com cortina elétrica, faróis LED, chave digital por Bluetooth, seis airbags, travagem autónoma de emergência, aviso de ângulo morto e manutenção na faixa. Para o preço, é uma lista difícil de igualar.
Falta-lhe uma coisa que muita gente considera essencial. O T03 não tem Apple CarPlay nem Android Auto, e o sistema multimédia foi descrito pela Carwow como complicado de usar. Quem vive com o Google Maps ou o Waze no telemóvel vai notar isto todos os dias.
O Spring divide-se em duas versões. A Expression traz jantes Flexwheel de 15", ar condicionado manual, faróis automáticos, sensores de estacionamento traseiros e o sistema Media Control, que usa o telemóvel como ecrã. A Journey acrescenta jantes de 16", acesso mãos-livres, câmara traseira e o Media Nav Live de 10,1" com Apple CarPlay e Android Auto sem fios, navegação conectada durante oito anos e programação do carregamento.
Na segurança, há uma incógnita dos dois lados. O Spring antigo teve apenas uma estrela no Euro NCAP em 2021, e o T03 nunca foi testado. O novo Spring ainda não tem resultados publicados — um ponto a acompanhar antes de fechar negócio.
| Versão | Preço em Portugal | Sem IVA (empresas) |
|---|---|---|
| Dacia Spring Expression | 17.900 € | 14.553 € |
| Dacia Spring Journey | 19.400 € | 15.772 € |
| Leapmotor T03 (lançamento, 2025) | 19.600 € | — |
| Leapmotor T03 (campanhas de concessionário) | desde cerca de 18.438 € | desde 14.990 € |
No preço de tabela, o Spring Expression é o mais barato. Mas é também o mais despido e o único sem carregamento rápido. A comparação justa é Spring Journey com pack contra T03 — e aí os valores ficam muito próximos, na casa dos 19.000-20.000 €, com as campanhas do T03 a darem-lhe vantagem enquanto durarem.
Do lado fiscal, ambos beneficiam do mesmo tratamento: isenção de ISV (o imposto sobre veículos na compra) e de IUC para elétricos, além das vantagens para viaturas de empresa. Se voltar a haver incentivo do Fundo Ambiental, os dois estão abaixo de qualquer teto de preço provável.
A origem pesa mais do que parece. O Spring é agora fabricado na União Europeia, o que o livra das taxas compensatórias sobre elétricos chineses e o torna elegível para incentivos reservados à produção europeia noutros mercados. O T03 voltou a vir da China, sujeito a essas taxas desde que a produção polaca parou.
Para o comprador português, isto não muda o preço de hoje, mas pode influenciar o de amanhã. Uma marca com margem apertada por causa das tarifas tem menos espaço para descontos — ou mais vontade de os fazer para manter volume. A rede de assistência é outro fator: a Dacia está em Portugal há décadas, e o T03 é distribuído pela rede Stellantis.

O Spring de segunda geração foi apresentado em setembro de 2026 e as entregas começam em dezembro de 2026. Os preços portugueses já são conhecidos (17.900 € na versão Expression e 19.400 € na Journey), mas o valor do pack com carregamento rápido DC a 50 kW ainda não foi divulgado. O Leapmotor T03, pelo contrário, já está à venda nos concessionários da rede Stellantis.
Sem IVA, o novo Spring custa 14.553 € na versão Expression e 15.772 € na Journey. O T03 foi lançado em Portugal por 19.600 € com IVA, mas as campanhas de concessionário baixaram-no para 14.990 € + IVA (cerca de 18.438 €). Ambos estão isentos de ISV e de IUC, como todos os elétricos, e o IVA é dedutível em viaturas de empresa dentro dos limites legais.
Para o T03, a EV Database estima 190 km em percurso misto no frio (-10 °C, com aquecimento) e 260 km com tempo ameno, face aos 265 km WLTP; em autoestrada fica entre 160 e 205 km. O novo Spring anuncia até 250 km WLTP com 27,5 kWh úteis, mas ainda não há medições reais porque as entregas só arrancam em dezembro de 2026. Como o T03 não tem bomba de calor, perde cerca de 27% da autonomia no frio, uma referência útil para o que esperar de um citadino deste segmento.
Não. O T03 tem ecrã táctil de 10,1 polegadas e quadrante digital de 8 polegadas, mas não oferece Apple CarPlay nem Android Auto, e o sistema multimédia é criticado nos testes por ser pouco intuitivo. No novo Spring, a versão Journey traz CarPlay e Android Auto sem fios no ecrã Media Nav Live de 10,1 polegadas, enquanto a Expression usa o próprio telemóvel como ecrã através do Media Control.
Pode valer, sobretudo para uso urbano: a bateria LFP de 37,3 kWh tolera bem cargas completas frequentes e tem garantia de 8 anos ou 160.000 km, o que protege os primeiros compradores em segunda mão. Traz de série carregamento DC até 48 kW, seis airbags e teto panorâmico. Antes de comprar, confirme o estado da bateria e tenha em conta que o modelo nunca foi testado pelo Euro NCAP e não tem espelhamento de smartphone.
Escolha o novo Spring se precisa de bagageira a sério, quer Apple CarPlay ou Android Auto, valoriza um carro fabricado na Europa e está disposto a ir para a versão Journey com o pack de carregamento. É o mais racional dos dois, e o mais espaçoso.
Escolha o Leapmotor T03 se quer o máximo de equipamento pelo mínimo, faz sobretudo cidade, aproveita uma campanha de concessionário e não se importa de viver sem espelhamento do telemóvel. Tem mais bateria, carregamento DC de série e já está à venda — o Spring só chega em dezembro de 2026.
Há ainda uma terceira via. Os dois modelos já têm oferta de usados em Portugal, e um T03 com poucos quilómetros ou um Spring de primeira geração podem custar bem menos do que qualquer versão nova. Para quem faz 30 ou 40 km por dia, pode ser a forma mais barata de passar para elétrico.
O próximo marco é a chegada do novo Spring aos concessionários portugueses, com o preço do pack de carregamento e os primeiros testes de autonomia real. Até lá, o T03 tem o terreno livre — e argumentos de sobra para quem não quer esperar.