Carros Elétricos Usados a Evitar em Portugal: 8 Modelos e o Que Verificar

Publicado: 23/10/2026
Carros Elétricos Usados a Evitar: 8 Modelos de Risco

Carros elétricos usados a evitar: o problema raramente é o motor

Um elétrico usado barato pode sair caríssimo. Não por causa do motor, que tem poucas peças móveis e quase não avaria, mas por quatro razões que se repetem: a marca faliu e deixou de haver peças, a bateria tem um recall por resolver, o arrefecimento da bateria é fraco, ou a bateria nem sequer vem com o carro. Esta lista de carros elétricos usados a evitar junta os casos mais claros e explica, modelo a modelo, o que pode correr mal.

Quase todos os modelos aqui referidos circulam em Portugal, muitos deles importados de França, Alemanha ou Holanda. Por isso, mais do que um ranking dos piores carros elétricos usados, fica um guia para perceber o que verificar antes de pagar.

ModeloPrincipal problemaRisco para quem compra
Fisker OceanMarca falida (2024)Sem garantia, sem atualizações OTA, peças difíceis
Hyundai Kauai Electric (1.ª geração)Recall de bateria por risco de incêndioCarro com recall por fazer
Nissan Leaf (24 e 30 kWh)Bateria arrefecida a ar, degradaçãoAutonomia muito abaixo da original
Renault Zoe (até final de 2019)Bateria alugadaMensalidade de 69 a 124 € por mês
Smart ForFour EQBateria de 17,6 kWhCerca de 130 km de autonomia
Mazda MX-30200 km WLTP, DC a 50 kWPouco prático fora da cidade
Citroën ë-C4 (primeiras versões)Eficiência fracaAutonomia real abaixo do anunciado
Toyota bZ4X (1.ª geração)Consumo acima do prometidoEstimativas de autonomia pouco fiáveis

Marcas falidas: quando o fabricante desaparece

Um carro de uma marca que já não existe é um carro sem garantia, sem rede oficial e, num elétrico moderno, sem as atualizações de software que mantêm tudo a funcionar. É o risco mais difícil de resolver, porque nenhum mecânico independente consegue substituir um fabricante inteiro.

Fisker Ocean: muito carro, nenhum apoio

No papel, o Ocean impressiona: SUV familiar com até 572 cv e uma autonomia anunciada de até 440 milhas (cerca de 708 km). A realidade é outra. A Fisker pediu proteção ao abrigo do Chapter 11 em junho de 2024, depois de construir cerca de 11.000 unidades e deixar mais de mil milhões de dólares em dívidas.

Os proprietários perderam as atualizações remotas (OTA), os serviços conectados e o apoio da garantia. Uma tentativa de manter o software ativo através da American Lease, num acordo de cerca de 2,5 milhões de dólares, nunca chegou a ser assinada. Resultado: a conectividade remota foi cortada e um recall pendente ficou bloqueado.

Há um detalhe que torna isto relevante para nós. O Ocean era montado pela Magna em Graz, na Áustria, e foi vendido na Europa. Os donos organizaram-se na Fisker Owners Association, com cerca de 4.000 membros, que chegou a montar um serviço de reparação móvel europeu, os "Flying Doctors". Funciona, mas depende de voluntarismo. O sistema de infoentretenimento, de resto, já era criticado mesmo quando a marca existia.

No Reino Unido, um Ocean usado anda pelas 16 mil libras, muito abaixo do preço de lançamento. Parece uma pechincha. Antes de comprar um Fisker Ocean usado em Portugal, pergunte-se quem vai reparar o carro daqui a três anos.

Neta, Skywell e outras marcas sem rede

A Fisker não está sozinha. A chinesa Neta (Hozon Auto) entrou em processo de falência em junho de 2025, com mais de 400.000 proprietários. Na Tailândia, houve donos à espera de peças até 10 meses. Nikola, Canoo e Arrival são outros nomes de fabricantes de elétricos que fecharam portas.

O Skywell BE11 é um caso diferente mas com o mesmo resultado prático: no Reino Unido há menos de 100 registados e não existe apoio oficial da marca. Além disso, foi criticado pelos materiais, velocidade de carregamento, infoentretenimento e condução. Com marcas recém-chegadas, a regra é simples: confirme que existe concessionário e oficina autorizada perto de si antes de assinar.

Recalls de bateria: o caso do Hyundai Kauai Electric

Em Portugal, o Kona chama-se Kauai, e a primeira geração do Kauai Electric está no centro de um dos maiores recalls de baterias da Europa. A base de dados alemã KBA (referência 16242R) lista 104.011 unidades em todo o mundo, produzidas entre 24 de janeiro de 2018 e 15 de julho de 2023.

O problema está no software de gestão da bateria (BMS), que pode não detetar a tempo uma instabilidade térmica na bateria de alta tensão. Tradução: risco de incêndio. A solução passa por uma atualização do BMS, que vigia melhor as diferenças de tensão entre células, e em alguns casos pela substituição completa da bateria como precaução. Tudo gratuito, dentro da campanha oficial.

Não é a primeira vez. Em 2020, a Hyundai chamou mais de 25.000 unidades na Coreia do Sul por possíveis defeitos em células da LG Chem, e em 2021 uma ação global de cerca de 82.000 veículos, incluindo o Ioniq Electric, substituiu baterias LG após incêndios. O Chevrolet Bolt, vendido na Europa como Opel Ampera-e, teve uma substituição total de baterias em 2021 pelo mesmo tipo de risco.

Como verificar o recall pelo VIN

O Kauai Electric de primeira geração não é um carro a evitar por definição. É um carro a evitar se o recall não estiver feito. Existiu com baterias de 39,2 kWh e 64 kWh, e ainda não está claro que versões são afetadas, por isso a verificação tem de ser feita caso a caso:

  • Peça ao vendedor o número de quadro (VIN) que consta no Documento Único Automóvel.
  • Contacte um concessionário Hyundai e confirme se todas as campanhas de recolha estão concluídas.
  • Exija o comprovativo da intervenção por escrito.

A segunda geração (2023 em diante) usa baterias diferentes e não está abrangida.

Nissan Leaf usado: degradação da bateria e arrefecimento a ar

O Leaf foi durante anos o elétrico mais fácil de encontrar em segunda mão, e continua a ser uma alternativa razoável a muitos modelos desta lista. Mas tem uma fraqueza estrutural: todas as versões até 2024 usam uma bateria com arrefecimento passivo a ar, sem gestão térmica por líquido. O calor é o principal inimigo destas baterias, e no verão português isso conta.

A idade da bateria faz toda a diferença:

BateriaAnosSituação
24 kWh2011–2015As mais degradadas hoje
30 kWh2016–2017Também com degradação acima da média
40 kWh2018 em dianteSofre de "Rapidgate"
62 kWh (e+)2019 em dianteSofre de "Rapidgate"

O "Rapidgate" é a limitação da potência de carregamento DC depois de dois ou três carregamentos rápidos seguidos, porque a bateria aquece demasiado. Numa viagem Lisboa–Algarve com paragens consecutivas, isso significa esperas cada vez mais longas. O pico de carregamento já é modesto à partida: 50 kW, com cerca de 43 minutos para recuperar 160 km.

Há ainda a questão da ficha. Todos os Leaf até 2024 usam CHAdeMO, um padrão em fase de abandono. A oferta de carregadores rápidos compatíveis tende a encolher, o que torna o carro muito dependente do carregamento em casa.

Os dados da Recurrent, baseados em mais de mil milhões de milhas reais, não são alarmantes para as versões recentes: em média, 93% da autonomia original após 3 anos e 91% após 5. O problema concentra-se nas baterias mais antigas e em carros que viveram em climas quentes.

Como saber se a bateria do Leaf está boa

O painel mostra 12 barras de capacidade quando a bateria é nova, e cada barra perdida é capacidade que não volta. Mas as barras são uma indicação grosseira. Para saber o estado de saúde da bateria (SOH) em percentagem, use a aplicação LeafSpy com um leitor OBD-II. Se o vendedor não deixar fazer o teste, isso já é uma resposta.

Nissan Leaf de segunda geração a circular em estrada
O Leaf de segunda geração: bateria maior, mas o mesmo arrefecimento a ar.

Renault Zoe com bateria alugada: a armadilha dos importados

Este é talvez o caso mais português da lista, porque muitos Zoe usados chegam importados de França. Até ao restyling do final de 2019, o Zoe podia ser vendido com a bateria comprada ou com a bateria alugada. Se for alugada, compra o carro mas a bateria continua a pertencer à financeira da Renault, e tem de pagar uma mensalidade.

Os pacotes europeus para Zoe mais antigos dão uma ideia do custo:

PacoteQuilometragem anualMensalidade
Z.E. Flex7.500 km69 €
Z.E. Flex17.500 km114 €
Z.E. RelaxIlimitada124 €

Com 114 € por mês, são 1.368 € por ano só para poder usar a bateria. Um Zoe "barato" deixa de o ser depois de feitas as contas. É possível comprar a bateria ao fim do contrato, através do concessionário ou da Renault Finance, mas o valor é elevado e o cancelamento antecipado pode envolver taxas por quilómetros em excesso e rescisão.

Há um lado positivo, ainda que com fontes contraditórias: alguns contratos garantem reparação ou substituição se a capacidade cair abaixo de cerca de 75% (alguns contratos antigos de 22 kWh referem 60%).

Autonomia real do Zoe de primeira geração

Mesmo com a bateria incluída, convém ajustar expectativas:

VersãoAutonomia anunciadaAutonomia real
22 kWh (lançamento)209 kmcerca de 113 km
R240, 22 kWh (2015)240 kmcerca de 113 km
Z.E. 40 (desde nov. 2016)402 km (NEDC)cerca de 240 km

O Z.E. 40 é a versão a procurar. Atenção também aos anúncios alemães: "ohne Batterie" significa que a bateria é alugada, "mit Batterie" que está incluída. A mesma armadilha pode aparecer no Nissan Leaf de primeira geração (aluguer a partir de cerca de 80 € por mês), no Kangoo Z.E., no Twizy, no Fluence Z.E., no Master Z.E. e no e-NV200.

Renault Zoe de primeira geração ligado a um posto de carregamento
Num Zoe anterior a 2020, confirme nos documentos se a bateria é sua.

Baterias pequenas: elétricos com autonomia curta demais

Uma bateria pequena não é um defeito, desde que o preço e o uso batam certo. O problema é quando o carro custa o mesmo que alternativas que fazem o dobro.

  • Smart ForFour EQ: 17,6 kWh, 82 cv e cerca de 130 km de autonomia. Pelo mesmo dinheiro, um Nissan Leaf usado oferece o dobro da autonomia e mais espaço.
  • Mazda MX-30: 200 km em ciclo WLTP e carregamento DC a apenas 50 kW. Some-se as portas traseiras de abertura invertida, os bancos traseiros apertados e um infoentretenimento datado. Para quem pergunta se um Mazda MX-30 usado vale a pena: só se for exclusivamente citadino.
  • Citroën Ami: cerca de 77 km de autonomia e 45 km/h de velocidade máxima. É um quadriciclo, não um carro. Um Leaf ou Zoe usado ao mesmo preço é uma compra mais versátil.

Elétricos que simplesmente não convencem

Alguns modelos não têm um problema grave único, mas acumulam defeitos suficientes para haver melhores opções:

  • Citroën ë-C4 (primeiras versões): bateria de 50 kWh e 138 cv, com eficiência real fraca e estimativas de autonomia pouco fiáveis. A versão posterior de 54 kWh é melhor.
  • Toyota bZ4X (primeira geração): o conjunto motor-bateria é menos eficiente do que a Toyota anunciava, e os números de autonomia não são fiáveis. O modelo de 2025 em diante melhorou bastante.
  • GWM Ora Funky Cat (depois Ora 03): lançado em 2023 como rival do VW ID.3 e do MG4, criticado pela condução, autonomia real, bagageira pequena, interface e assistências à condução.
  • Tesla Model X: sete lugares e cerca de 1.000 cv, mas grande para estradas europeias e com dúvidas sobre fiabilidade e qualidade dos materiais.
  • Reva G-Wiz: 77 a 121 km de autonomia, 80 km/h de velocidade máxima e uma segurança muito questionada em testes de colisão. Um curioso, não um carro para o dia a dia.

Perguntas Frequentes

Sim, desde que a bateria esteja saudável e a marca tenha assistência em Portugal. Os elétricos continuam isentos de ISV e de IUC, e os dados da Recurrent, baseados em mais de mil milhões de milhas reais, mostram que os elétricos mais recentes mantêm em média 93% da autonomia original ao fim de 3 anos e 91% ao fim de 5. O risco concentra-se em casos específicos: marcas falidas, recalls por fazer, baterias antigas arrefecidas a ar e baterias alugadas.

Peça um relatório do estado de saúde da bateria (SOH) em percentagem, feito no concessionário ou com um leitor OBD-II, e não confie apenas no indicador do painel. No Nissan Leaf, as 12 barras de capacidade são só uma indicação grosseira; a aplicação LeafSpy dá o valor exato. Confirme também quanto falta da garantia da bateria, que em muitas marcas é de 8 anos, e se é transmissível ao novo dono.

Nos Zoe vendidos até ao facelift do final de 2019 com bateria alugada, os pacotes europeus custam 69 € por mês (7.500 km/ano), 114 € (17.500 km/ano) ou 124 € (quilometragem ilimitada). A 114 € por mês são 1.368 € por ano só para usar a bateria. É possível comprá-la através de um concessionário ou da Renault Finance, mas o valor é elevado e pode haver taxas por excesso de quilómetros ou rescisão antecipada; em anúncios alemães, "ohne Batterie" indica bateria alugada.

Peça ao vendedor o número de quadro (VIN), que consta do Documento Único Automóvel, e confirme num concessionário Hyundai que todas as campanhas estão concluídas, pedindo comprovativo escrito. O recall (referência KBA 16242R) abrange 104.011 unidades da primeira geração produzidas entre 24 de janeiro de 2018 e 15 de julho de 2023, devido a risco de incêndio, e a reparação é gratuita. A segunda geração, de 2023 em diante, não é afetada.

É uma compra de alto risco. A Fisker entrou em Chapter 11 em junho de 2024, depois de produzir cerca de 11.000 Ocean, e os donos perderam a garantia, as atualizações OTA e os serviços conectados, com um recall pendente bloqueado. A Fisker Owners Association, com cerca de 4.000 membros, organiza reparações móveis na Europa, mas não substitui uma rede oficial de peças e assistência.

Comprar carro elétrico usado: cuidados antes de assinar

Vale a pena comprar um carro elétrico usado em Portugal? Sim, e a isenção de ISV na compra de elétricos e de IUC continua a ajudar as contas. Mas só depois destas verificações:

  1. Relatório de saúde da bateria (SOH). Peça um diagnóstico em percentagem, não se fique pelo indicador do painel.
  2. Recalls concluídos pelo VIN. Confirme junto da marca que todas as campanhas estão feitas, sobretudo no Kauai Electric de primeira geração.
  3. Fabricante presente em Portugal. Peças, oficina autorizada e atualizações de software dependem disso.
  4. Propriedade da bateria. Verifique nos documentos se a bateria é comprada ou alugada, especialmente em Renault anteriores a 2020.
  5. Ficha de carregamento. CHAdeMO limita cada vez mais a rede rápida; CCS é o padrão europeu.
  6. Autonomia real vs. a sua viagem mais longa. Compare a autonomia realista, não o valor WLTP ou NEDC, com o trajeto que faz com frequência.
  7. Garantia da bateria. Muitos fabricantes dão 8 anos; confirme quanto falta e se é transmissível.

Um elétrico usado com bateria saudável, recalls em dia e uma marca com assistência em Portugal continua a ser uma das formas mais baratas de passar para a mobilidade elétrica. Os modelos desta lista não são todos proibidos. São carros em que a pergunta certa, feita antes da compra, poupa uma dor de cabeça de milhares de euros.