
Há uma razão muito concreta para as marcas chinesas estarem a abrir fábricas em Espanha, na Hungria ou na Áustria: dinheiro. Desde 31 de outubro de 2024 que a União Europeia aplica direitos de compensação sobre os carros 100% elétricos fabricados na China, por cima dos 10% de direito de importação que já existiam. Para um MG, isso significa quase 45% de taxas. Construir o carro em solo europeu apaga grande parte desse encargo — e, em vários países, dá acesso a incentivos de compra reservados a veículos produzidos na UE.
O resultado prático para o comprador português é simples: mais modelos chineses a chegar cá, com preços que deixam de carregar o peso das tarifas. Este é o panorama atual de que carros chineses já se fabricam na Europa, fábrica a fábrica.
As taxas não são iguais para todos. A Comissão Europeia calculou um valor por fabricante, consoante o nível de subsídios identificado na China. Estes direitos têm uma duração de cinco anos e somam-se sempre aos 10% de base.
| Fabricante | Direito de compensação | Total aproximado (com 10% base) |
|---|---|---|
| SAIC / MG | 35,3% | cerca de 45,3% |
| Geely (Volvo, Polestar, Zeekr) | 18,8% | cerca de 28,8% |
| BYD | 17,0% | cerca de 27,0% |
| Tesla (fabricado em Xangai) | 7,8% | cerca de 17,8% |
| Outros cooperantes (Xpeng, Nio) | cerca de 20,7% | cerca de 30,7% |
| Não cooperantes | até 35,3% | até cerca de 45,3% |
Cinco países votaram contra estas medidas: Alemanha, Hungria, Malta, Eslováquia e Eslovénia. Não é coincidência que três deles — Hungria, Eslováquia e, indiretamente, Espanha através da Stellantis — sejam agora destino de fábricas chinesas. Onde há vontade política, há investimento.
A Chery é quem está mais à frente. Em abril de 2024 criou a joint venture Ebro EV Motors e ocupou a antiga fábrica da Nissan em Barcelona, que estava parada. É um caso raro: uma fábrica chinesa a dar nova vida a uma unidade europeia em vez de a fechar.
De Barcelona saem já os Omoda em versão térmica e, desde outubro de 2025, o Omoda 5 elétrico fabricado em Espanha. A lista inclui ainda o SUV Jaecoo 7 e os modelos da marca Ebro — o S700 e o S800, ambos em híbrido e térmico. Para Portugal, isto significa que o Omoda 5 elétrico chega sem a carga das tarifas chinesas, o que abre espaço para um preço mais competitivo face a rivais europeus do mesmo segmento.

A Leapmotor joga com uma carta que mais nenhuma marca chinesa tem: a Stellantis é sua acionista. Por isso o próximo passo da marca acontece numa fábrica do grupo, em Figueruelas (Zaragoza), a partir de agosto de 2026.
O primeiro modelo a sair de lá é o B10, um SUV elétrico compacto, com uma capacidade inicial de cerca de 40.000 unidades por ano. O B05, também compacto, chega ainda em 2026, e os A10 e A05 estão previstos para 2027. Até abril de 2025, a Leapmotor produzia o pequeno T03 em Tychy, na Polónia; o resto da gama vinha diretamente da China. Passar para produção local em Espanha é decisivo, porque a montagem completa — ao contrário da montagem por kits — dá direito a incentivos nacionais à compra de elétricos.
A primeira fábrica europeia de automóveis da BYD fica em Szeged, na Hungria, e é a aposta de maior escala. A produção de ensaio arrancou no final de janeiro de 2026; a produção em série estava prevista para o segundo trimestre, mas declarações recentes da BYD apontam agora para o final de 2026.
Os primeiros modelos são o Dolphin Surf — o citadino elétrico vendido na China como Seagull — e o pequeno SUV Atto 2, este em versão elétrica e híbrida. A capacidade está desenhada para chegar a cerca de 200.000 carros por ano, com um arranque na ordem das 150.000 unidades. Há, no entanto, um senão: pelo menos no início, a fábrica húngara depende de baterias e aço importados da China, o que limita parte do benefício fiscal. A Hungria foi, recorde-se, um dos cinco países a votar contra as tarifas.
Na Áustria, a Magna Steyr de Graz — a mesma fábrica que durante anos montou carros para outras marcas — começou a montar modelos chineses a partir do terceiro trimestre de 2025. Para a Xpeng saem os G6 e G9; para a GAC, o Aion V.
A diferença está no método. Trata-se de montagem SKD (semi-knocked-down), ou seja, a partir de kits enviados da China. Isto reduz logística e tempos de entrega, mas atenção: a montagem por kits pode não dar direito aos mesmos incentivos que a produção local completa concede. É uma solução intermédia — europeia na etiqueta final, chinesa na maior parte do percurso.
A Geely, dona de Volvo, Polestar, Lynk and Co, Lotus e Zeekr, segue uma estratégia que resume bem com o lema "na Europa, para a Europa". O próximo marco está na fábrica Volvo de Kosice, na Eslováquia, onde a partir de 2028 deverá nascer o SUV Polestar 7, a par de modelos Smart.
Para lá destes nomes confirmados, a corrida continua. Espera-se que, até 2030, existam cerca de dez fábricas de marcas chinesas dentro ou perto da Europa. A Itália e a Turquia disputam novos investimentos, com nomes como Dongfeng, Changan, Great Wall e a SAIC/MG em cima da mesa. Há ainda fabricantes por contrato — como a VDL nos Países Baixos, com capacidade para 200.000 carros por ano — prontos a receber um parceiro chinês.
Em 2026 já saem das linhas europeias o Chery Omoda 5 elétrico e o Jaecoo 7 (Barcelona, ex-fábrica da Nissan), o Leapmotor B10 e B05 (Figueruelas, Zaragoza, a partir de agosto de 2026) e o BYD Dolphin Surf e Atto 2 (Szeged, Hungria). Na Áustria, a Magna Steyr de Graz monta por kits os Xpeng G6 e G9 e o GAC Aion V. O Polestar 7 da Geely chega à fábrica Volvo de Kosice, na Eslováquia, só em 2028.
Tendem a ser. Um elétrico montado em Espanha ou na Hungria não carrega os direitos de compensação da UE, que podem ir dos 17% da BYD aos 35,3% da SAIC/MG, somados aos 10% de direito de importação de base. Eliminar esse encargo abre margem para preços de etiqueta mais competitivos no mesmo modelo, embora o valor final dependa também da estratégia comercial de cada marca em Portugal.
Os elétricos beneficiam sempre da isenção de ISV e de vantagens no IUC em Portugal. A produção local completa pode ainda dar acesso a apoios à compra reservados a veículos fabricados na UE, ao contrário dos carros importados diretamente da China. Há que confirmar caso a caso, sobretudo nos modelos montados por kits (SKD), que nem sempre são elegíveis para os mesmos incentivos.
Na produção local completa o carro é construído de raiz na fábrica europeia, como acontece com o Chery em Barcelona ou o Leapmotor em Zaragoza. A montagem SKD (semi-knocked-down), usada na Magna Steyr de Graz para a Xpeng e a GAC, parte de kits enviados da China e apenas finaliza a montagem na Europa. A distinção importa porque a montagem por kits pode não dar direito aos mesmos incentivos nacionais que a produção completa concede.
A vantagem mais imediata é o preço, por fugir às tarifas da UE, e a possibilidade de aceder a incentivos quando a produção é local completa. Ainda assim, a origem europeia não substitui a análise do carro em si: vale a pena comparar autonomia WLTP real, capacidade da bateria, velocidade de carregamento e a rede de assistência da marca em Portugal. A boa notícia é que a oferta de elétricos a preços competitivos no mercado português vai crescer claramente nos próximos dois anos.
Para o comprador português, a vantagem mais imediata é o preço. Um elétrico chinês montado em Espanha ou na Hungria não carrega os direitos de compensação que oneram um carro vindo diretamente da China, o que se traduz em etiquetas potencialmente mais baixas no mesmo modelo.
Há ainda a questão dos incentivos. Quando o carro é de produção local completa, fica elegível para apoios à compra de elétricos que os modelos importados nem sempre alcançam — algo a confirmar caso a caso, sobretudo nos modelos montados por kits. Em Portugal, somam-se os benefícios habituais dos elétricos: isenção de ISV e vantagens no IUC.
Antes de decidir, vale a pena olhar para o essencial de sempre — autonomia WLTP real, capacidade da bateria, velocidade de carregamento e a rede de assistência da marca em Portugal. A origem europeia é um bom argumento de preço, mas não substitui a análise do carro em si. O que mudou, e mudou para melhor, é que a oferta de elétricos a preços competitivos no nosso mercado vai crescer de forma clara nos próximos dois anos.