
Durou pouco mais de um mês. Em agosto, o importador alemão Auto China começou a vender o AUDI E5 Sportback e o AUDI E7X — os elétricos que a Audi desenvolveu com a SAIC só para a China — e em setembro os dois modelos já tinham desaparecido do site. A razão tem nome: a Audi processa o importador e quer acabar com a importação paralela do AUDI E5 Sportback na Europa.
"Iniciámos ações legais contra o importador e vamos fazer valer os nossos direitos de forma consequente", disse uma porta-voz da marca à Automobilwoche. Que ações, exatamente? A Audi não diz, alegando que o processo está a decorrer. O efeito, esse, foi imediato.
Para quem acompanhou o nosso artigo sobre o preço do Audi E5 Sportback na Europa, este é o capítulo seguinte. E muda bastante as contas para quem, em Portugal, estava a pensar num destes carros.
Um detalhe importante: toda a informação disponível diz respeito à Alemanha. Não há, para já, confirmação de ações semelhantes noutros países.
Parece contraditório. O carro diz AUDI, foi feito por uma joint venture da Audi — como é que a própria marca pode impedir que seja vendido? A resposta está no direito de marca, e não nas especificações técnicas.
Na lei alemã (§24 da MarkenG), tal como no direito de marcas da União Europeia, vale o princípio do esgotamento: o dono de uma marca perde o direito de proibir a revenda de um produto a partir do momento em que ele próprio, ou alguém com o seu consentimento, o colocou no mercado dentro do Espaço Económico Europeu (EEE).
O E5 Sportback e o E7X só foram colocados no mercado na China. Logo, na Europa, os direitos da Audi sobre a marca continuam intactos. E o Tribunal de Justiça da UE fechou a porta ao chamado "esgotamento internacional" no acórdão Silhouette, de 1998: vender um produto fora do EEE não autoriza a sua revenda livre cá dentro.
Como este princípio é europeu, também se aplica em Portugal. Ou seja, a questão da importação paralela de carros com marca registada não é um problema só alemão.
A Audi acrescenta outros argumentos. Segundo a AUTO BILD, a porta-voz da marca afirmou que os modelos "não têm homologação europeia de tipo" e que os concessionários Audi fora da China não os podem assistir, porque os tratam como carros de outra marca.
A Audi não parte do zero. Em março de 2026, o Tribunal Regional de Hamburgo deu razão à Volkswagen num caso muito parecido (processo 312 O 182/23):
A decisão ainda não transitou em julgado e pode ser objeto de recurso. Mas funciona como um guião para o caso da Audi.
Aqui há uma boa e uma má notícia. A boa: o direito de marca proíbe o uso de uma marca alheia "no âmbito de atividade comercial". Um particular que simplesmente conduz o seu carro não é o alvo. Há quem fale no risco de os carros serem retirados de circulação por ordem das autoridades, mas nenhuma fonte documenta que isso tenha acontecido.
A má notícia é tudo o resto.

A própria Audi é clara: fora da China, os concessionários tratam o E5 e o E7X como carros de outra marca e não fazem a manutenção. As peças vêm da China, fora da rede de distribuição europeia da Audi. Para quem estava a pensar que um AUDI com motor e plataforma da casa seria fácil de assistir em qualquer oficina Audi de Lisboa ou do Porto, não é o caso.
A isto somam-se os pontos que já conhecíamos: garantia do importador de apenas 2 anos ou 80.000 km, com cobertura limitada a 10.000€ por avaria; tomada de carregamento chinesa GB/T em vez da CCS europeia (o adaptador custa cerca de 950€); e atualizações remotas presas ao ecossistema chinês.
Vender o carro a outro particular não é, em princípio, um problema. Mas revendê-lo através de um stand ou comerciante já é atividade comercial — e é exatamente aí que o direito de marca morde. Menos compradores possíveis, sem assistência oficial: a desvalorização tende a ser bem mais pesada do que num elétrico comprado na rede oficial.
Resposta curta: não por um canal oficial, e cada vez menos por um canal paralelo.
A Audi não tem planos para lançar o E5 ou o E7X na Europa. A marca AUDI é assumidamente exclusiva da China, e há mais modelos só para esse mercado a caminho. O principal canal comercial que existia — a Auto China — parou. E qualquer outro importador profissional que tente o mesmo, seja na Alemanha, em Espanha ou em Portugal, fica exposto ao mesmo risco legal, porque o princípio do esgotamento vale em todo o EEE.
A importação paralela de elétricos chineses para Portugal continua viável para marcas que vendem oficialmente na Europa ou que não se opõem a ela. Com a importação paralela do AUDI E5 Sportback travada, o E5 e o E7X deixaram de estar nesse grupo.
Um particular que importe um carro para uso próprio não está a agir "no âmbito de atividade comercial", pelo que o direito de marca não o atinge da mesma forma. O problema é o resto da conta:
Os elétricos puros estão isentos de ISV em Portugal, o que ajuda. Mas não compensa o resto.
Para quem se apaixonou pelo E5 Sportback, o caminho mais seguro passa pela gama oficial: o A6 Sportback e-tron e o A6 Avant e-tron, ou os SUV Q6 e-tron e SQ6 e-tron. Têm homologação europeia, garantia de fábrica, rede de assistência em Portugal e carregamento CCS.
São mais caros, isso é certo. Na Alemanha, a AUTO BILD aponta o S6 e-tron Sportback a partir de 99.500€ e o SQ6 e-tron a partir de 93.800€ — valores que ajudam a perceber porque é que um AUDI de 787 cv a menos de 60.000€ chamou tanta atenção. Para os preços atuais em Portugal, o configurador da Audi é a referência mais fiável.
Há também quem esteja a fazer as coisas de outra forma: a GAC produz elétricos na Magna, na Áustria, o que lhe dá homologação europeia e uma via de venda legal. É por aí que passa o futuro dos elétricos chineses no nosso mercado — não pela importação paralela de modelos que a própria marca quer manter na China.
Pode, quando os carros nunca foram vendidos oficialmente no Espaço Económico Europeu. Pelo princípio do esgotamento do direito de marca, a Audi só perde o controlo sobre a revenda de um produto que ela própria colocou no mercado do EEE, e o AUDI E5 Sportback e o E7X só foram vendidos na China. Desde o acórdão Silhouette do Tribunal de Justiça da UE, de 1998, vender fora do EEE não liberta a revenda cá dentro, e a regra aplica-se também em Portugal.
Um particular que apenas conduz o carro não é o alvo, porque o direito de marca proíbe o uso de marca alheia no âmbito de atividade comercial, e nenhuma fonte documenta carros retirados de circulação. O risco está na revenda: vender a outro particular é, em princípio, possível, mas vender através de um stand já é atividade comercial. No caso semelhante do VW ID.6 CROZZ, o Tribunal de Hamburgo mandou destruir 22 carros de um comerciante em março de 2026, numa decisão ainda passível de recurso.
Não. Segundo a própria Audi, fora da China os concessionários tratam o E5 e o E7X como carros de outra marca e não fazem manutenção, e as peças vêm da China, fora da rede europeia da marca. Resta a garantia do importador, de 2 anos ou 80.000 km e limitada a 10.000€ por avaria, muito aquém da garantia de bateria de 8 anos ou 160.000 km habitual nos elétricos vendidos na Europa.
Em princípio sim, porque um particular que importa para uso próprio não age no âmbito de atividade comercial. Mas paga 10% de direito aduaneiro mais 35,3% de direito compensatório aplicado à SAIC desde 30 de outubro de 2024, além do IVA; a TeslAnt estima cerca de 71.400€ com IVA para um E5 posto na Alemanha. Como elétrico, fica isento de ISV, mas sem homologação europeia de tipo precisa de aprovação individual, e convém confirmar o processo de legalização antes de comprar.
As alternativas mais próximas são o A6 Sportback e-tron e o A6 Avant e-tron, e os SUV Q6 e-tron e SQ6 e-tron, todos com homologação europeia, garantia de fábrica, carregamento CCS e rede de assistência em Portugal. No lançamento em Portugal, em 2024, o A6 Sportback e-tron custava a partir de 66.900€ e o Q6 e-tron 55 quattro 82.949€. Para preços atuais, o configurador da Audi é a referência mais fiável.
O processo da Audi ainda não tem decisão, e a situação pode mudar. Mas o sinal é claro: além dos direitos compensatórios, o direito de marca pode tornar alguns elétricos chineses inalcançáveis para quem compra na Europa. Se estava a considerar um AUDI E5 Sportback importado, a recomendação é esperar pela decisão do tribunal — e, entretanto, olhar com atenção para o que se vende oficialmente cá.