
Sessenta graus dentro do habitáculo. É o que um carro estacionado ao sol, ao meio-dia solar, atinge num dia de canícula — e é o ponto de partida de um teste francês da Automobile Propre que mediu, minuto a minuto, quanto tempo e quanta energia um elétrico gasta para tornar isso habitável. A resposta interessa a qualquer condutor português entre Junho e Setembro, e não só a quem tem um elétrico.
A conclusão curta: no verão, o ar condicionado num carro elétrico custa muito menos autonomia do que a maioria das pessoas receia. O aquecimento no inverno é que é o verdadeiro devorador de quilómetros. Mas há nuances — e há modelos claramente melhores do que outros a lidar com 35 ou 40 °C.
O teste da Automobile Propre é simples e replicável: carro parado em piso plano, totalmente exposto ao sol, climatização automática regulada nos 20 °C com ventilação intermédia, durante uma hora. Exterior a 36,3 °C. Habitáculo já saturado de calor, a cerca de 60 °C. Sondas no exterior, na saída de ventilação, entre os apoios de cabeça da frente e sob a coluna da direcção.
Na Nissan Leaf da nova geração, o consumo foi de 2,3 kWh numa hora. Cerca de 4 kW de potência no arranque, quando o sistema está a atacar os 60 °C, e um mínimo de aproximadamente 0,9 kW depois de estabilizar. Numa bateria de 75 kWh, essa hora inteira de arrefecimento com o carro parado representa pouco mais de 3 % da carga.
O clube automóvel alemão ADAC fez a experiência inversa e mais longa: um Tesla Model Y em laboratório, a simular oito horas de fila de trânsito com 35 °C lá fora e 20 °C no habitáculo. Resultado: 1,3 a 1,5 kW de potência de arrefecimento, cerca de 2 % de bateria por hora e aproximadamente 8 km de autonomia perdidos por hora. Ao fim das oito horas, 64 km e 16 % de bateria.
Compare com um carro a combustão no mesmo cenário: 1 a 1,5 litros por hora ao ralenti, o equivalente a 10 a 15 kWh. Numa fila parada na A2 num Domingo de Agosto, o elétrico é o carro que menos sofre — e o único que não precisa de manter um motor a trabalhar para ter ar frio.
Um estudo da Recurrent sobre 29.716 elétricos em circulação dá a dimensão prática. Aos 32 °C, os carros mantêm cerca de 95 % da autonomia. Aos 37 °C, a perda acelera para 17–18 % — sobram 82 a 83 %. Abaixo dos 30 °C o efeito é quase irrelevante (cerca de 2,8 % aos 27 °C).
Ou seja: o problema não é o ar condicionado ligado, é o calor extremo. Nos dias em que o Alentejo passa dos 40 °C, conte com perder perto de um quinto da autonomia anunciada. Nos restantes, a diferença cabe dentro da margem de erro do computador de bordo.
Voltando ao teste de habitáculo, a nova Leaf assinou o maior arrefecimento absoluto que a publicação alguma vez mediu: de 59,9 °C para 23,6 °C, uma queda de 36,3 °C. O ar à saída dos difusores chegou aos 4 a 5 °C.
O ritmo importa mais do que o número final. Nos primeiros dez minutos o habitáculo caiu de 59,9 °C para 29,2 °C. Aos 30 minutos estava em 25,6 °C, e a partir dos 50 minutos estabilizou nos 23,6 °C. Média da hora completa: 27,8 °C — 31,1 °C na primeira meia hora, 24,6 °C na segunda.
| Tempo | Habitáculo | Ar dos difusores | Exterior |
|---|---|---|---|
| 0 min | 59,9 °C | 49,2 °C | 36,3 °C |
| 10 min | 29,2 °C | 9,4 °C | 37,6 °C |
| 20 min | 28,1 °C | 7,8 °C | 36,9 °C |
| 30 min | 25,6 °C | 6,5 °C | 34,8 °C |
| 40 min | 25,8 °C | 4,2 °C | 31,2 °C |
| 50 min | 23,6 °C | 5,3 °C | 32,1 °C |
| 60 min | 23,6 °C | 5,2 °C | 33,5 °C |

Há um senão. Eficiência mede-se em graus ganhos por kWh gasto, e aí a Leaf fica a meio da tabela: 15,8 °C/kWh, atrás do Tesla Model 3 (22 °C/kWh) e do Renault Scénic E-Tech (16,3 °C/kWh), à frente do Volkswagen ID.7 (13,2 °C/kWh). A Leaf arrefece mais e mais depressa, mas paga por isso.
| Modelo | Habitáculo aos 60 min | Média da hora | Eficiência |
|---|---|---|---|
| Nissan Leaf | 23,6 °C | 27,8 °C | 15,8 °C/kWh |
| Skoda Elroq | 27,3 °C | 29,0 °C | n/d |
| Volkswagen ID.7 | 27,7 °C | 30,4 °C | 13,2 °C/kWh |
| Renault Scénic E-Tech | n/d | n/d | 16,3 °C/kWh |
| Tesla Model 3 | n/d | n/d | 22,0 °C/kWh |
Para quem faz percursos curtos e urbanos, o que conta é a rapidez do arrefecimento — chegar ao destino antes de o carro ficar fresco não serve de nada. Para quem passa horas em autoestrada com sol de frente, a eficiência pesa mais.
O detalhe mais interessante do teste: a Leaf conseguiu este resultado com um tecto panorâmico electrocrómico desenvolvido pela Saint-Gobain, um vidro que escurece a pedido, no mesmo princípio da tecnologia Solar Bay da Renault. Um tecto de vidro é normalmente um castigo térmico. O ID.7, o pior da tabela em eficiência, também tem tecto panorâmico; o Scénic, com tecto sólido, foi dos melhores.
Se está a escolher opções num elétrico e vive no interior ou no sul do país, vale a pena perguntar no concessionário se o tecto panorâmico tem estore físico ou vidro escurecível. Um panorâmico sem qualquer protecção é a diferença entre entrar num carro a 55 °C e num carro a 45 °C.
Este é o mal-entendido mais comum. A bomba de calor num carro elétrico é uma peça de inverno: substitui a resistência eléctrica no aquecimento e pode valer muitos quilómetros em Janeiro. No verão, não faz milagres.
Os dados da Recurrent chegam a ser contra-intuitivos: aos 32 °C, os carros com bomba de calor mantinham 93 % da autonomia contra 97 % dos que não a têm; aos 37 °C, 85 % contra 87 %. A diferença explica-se sobretudo pelos modelos e usos incluídos em cada grupo, mas o recado é claro — ninguém deve pagar a bomba de calor a pensar no calor.
Na nova Leaf, a bomba de calor é de série a partir do nível Engage nas versões de 75 kWh e surge como opção de cerca de 1.000 € (com IVA) nas versões de 52 kWh na Europa continental. É uma opção que se justifica pelos meses frios, não pelos de Agosto.
O teste deu ainda um dado que muda a forma de usar a pré-climatização. Depois de desligar o sistema, o habitáculo voltou aos 43 °C ao fim de 5 minutos, 50 °C aos 15 minutos e 54 °C aos 30 minutos. O frio evapora-se num carro ao sol.
Daí resultam regras práticas simples:
Muito menos do que a maioria receia. No teste do ADAC a um Tesla Model Y, manter o habitáculo a 20 °C com 35 °C no exterior consumiu apenas 1,3 a 1,5 kW, cerca de 2 % de bateria e aproximadamente 8 km de autonomia por hora. Em circulação normal, o estudo da Recurrent com 29.716 elétricos mostra que aos 32 °C os carros mantêm cerca de 95 % da autonomia. É o calor extremo, e não o compressor, que faz a diferença: aos 37 °C a perda sobe para 17 a 18 %.
Sim, mas por causa do inverno e não do verão. A bomba de calor substitui a resistência eléctrica no aquecimento e é aí que devolve quilómetros. Nos dados da Recurrent, aos 32 °C os carros com bomba de calor mantinham 93 % da autonomia contra 97 % dos que não a têm — ou seja, no calor não traz vantagem. Na nova Nissan Leaf é de série a partir do nível Engage nas versões de 75 kWh e custa cerca de 1.000 € de opção nas de 52 kWh na Europa continental.
Aguenta, e com folga. No cenário do ADAC de oito horas parado a 35 °C, o elétrico gastou 16 % de bateria e 64 km de autonomia no total. Um carro a combustão ao ralenti nas mesmas condições queima 1 a 1,5 litros por hora, o equivalente a 10 a 15 kWh por hora. O elétrico também não precisa de manter um motor a trabalhar para ter ar frio, o que evita ruído e emissões numa fila parada.
O uso pontual não danifica a bateria — a gestão térmica arrefece as células activamente —, mas o calor extremo prolongado acelera a degradação. As boas práticas em Portugal são estacionar à sombra, evitar deixar o carro ao sol com a bateria muito baixa e mantê-la acima dos 50 % ou ligada à tomada com limite nos 80 %. Também é normal notar carregamentos rápidos DC mais lentos em dias de canícula, porque o sistema protege a bateria antes de aceitar toda a potência.
Curta e com o carro ligado à tomada. No teste da Automobile Propre, assim que a climatização foi desligada o habitáculo voltou aos 43 °C ao fim de 5 minutos e aos 54 °C aos 30 minutos, por isso pré-climatizar meia hora antes é energia desperdiçada. Cinco a dez minutos imediatamente antes de sair chegam, e feito na tomada o custo passa para a rede em vez de sair da bateria. A nova Leaf mostrou que a primeira fase é a mais rápida: baixou de 59,9 °C para 29,2 °C em apenas dez minutos.
A nova Leaf, agora um crossover compacto produzido em Sunderland, chega com duas baterias. A de 52 kWh anuncia até 271–280 milhas WLTP (cerca de 436–450 km), 105 kW em corrente contínua e 174 a 213 cv consoante o mercado. A de 75 kWh sobe para 386 milhas WLTP (perto de 622 km), 215 cv e 150 kW em DC, com 20 a 80 % em cerca de 30 minutos. Em autoestrada a 113 km/h, os valores realistas caem para 306 km e 433 km, respectivamente. Preços britânicos a partir de 28.849 £ e 32.249 £ já com o apoio estatal de 3.750 £; os valores portugueses ainda não estão confirmados, mas a isenção de ISV e o IUC reduzido continuam a fazer a maior parte do trabalho na conta final.

Para o comprador português, a leitura útil deste teste não é a marca vencedora. É perceber que, num país onde o termómetro passa os 40 °C todos os verões, a qualidade da climatização e a protecção solar do habitáculo são critérios de compra tão concretos como a autonomia WLTP — e que quase nunca aparecem na ficha técnica. Da próxima vez que fizer um test drive em Agosto, deixe o carro dez minutos ao sol antes de entrar. É o teste mais revelador que pode fazer.